O caminho da realidade: entre o ideal e o real

 

            Durante muito tempo a filosofia tem se ocupado de uma pergunta aparentemente ingênua e simplista: existe realidade objetiva (um emaranhado de regras universais e permanentes que ligam todos nós nas mais variadas épocas)?

            Se considerarmos que a realidade objetiva existe, teríamos argumento para sempre vencer uma discussão, para impor nossos padrões éticos e religiosos, bem como para instituir parâmetros de pensamento corretos. Haveria um marco claro para guiar nossas vidas.

            Por outro lado, se a realidade for algo artificial, imperfeito e limitado pela contingência humana, então seríamos tentados a desconstituir modelos existentes há séculos e questionar até mesmo aqueles hábitos e sentimentos que são mais caros a nós. Tudo seria relativo e nada teria um valor em si mesmo.

            Dentre os vários intelectuais que tentaram sanar essa dúvida, destaco Edmund Husserl. Nascido no Império Austríaco, em 1859, faleceu em 1938, na então Alemanha Nazista. Sua própria história de vida refletiu a profunda transformação da sociedade em que viveu, sendo inevitável que se fizesse esses questionamentos.

            Husserl não se conformava com o relativismo que marcou sua época. Por essa razão, resolveu explicar esse tormentoso problema da seguinte forma: somos dotados de subjetividade e construímos percepções próprias da realidade, mas, ao impulsionarmos esse ato de consciência expressando-o intersubjetivamente, criamos elementos objetivos de realidade.        

            A realidade objetiva representaria um conjunto de ideais, isto é, pensamentos que projetam nossos anseios. Essa realidade seria indissociável da nossa cultural, vez que contida na linguagem. É um território movediço; vazio da perspectiva do que é real e completo sob a perspectiva do que é ideal.

            O sentimento de vazio que nos acompanha desde que a religião e seus dogmas deixaram de ser o ponto central de justificação de nossos padrões de comportamento pode ser explicado, segundo essa fórmula, como nossa insegurança diante do seguinte binômio: a grande capacidade humana de idealizar e a natural incapacidade de concretizar o ideal. Sempre foi assim e sempre será assim. Essa é a mola propulsora do conjunto de acontecimentos que tem construído a história humana.

            Portanto, idealistas, atenção, sua realidade jamais será ideal. Quando vocês se aproximarem de um padrão que reflete o ideal, sua imaginação já os terá transportado para um novo horizonte de sonhos. Realistas, vocês também devem ter atenção. Sem projetar o diferente, sem tentar ver um mundo que pode ser (ainda que ainda não seja), vocês estarão diante de uma realidade sem movimento, estática, triste. Algo assim, neste planeta, tende à frustração, ao desaparecimento. Onde fica a realidade? Ela fica a meio caminho entre o real e o ideal, só depende de nós para ser construída.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 

Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. O caminho da realidade: entre o ideal e o real. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 2, 13 abr. 2017.