A anaciclose política de Políbio

Vagner Felipe Kühn

             Políbio (que viveu entre 203 antes de Cristo e 120 antes de Cristo) foi um dos primeiros intelectuais a tratar a história como uma correlação entre causas e consequências. Ainda que fosse da cidade (para alguns, província) de Arcádia, atual Grécia, ele foi levado como refém para Roma. Na época, ocorria a Terceira Guerra da Macedônia, que opunha a Roma de Lúcio Emílio Paulo e o Reino da Macedônia, comandado pelo Rei Perseu. Arcádia tentava se colocar em uma posição de neutralidade, mas os romanos preferiram levar para Roma quase mil reféns para se protegerem de uma eventual mudança de posicionamento.

             Como Políbio era um homem erudito, em Roma, foi designado para ser preceptor de Públio Cornélio Cipião Africano. A “gens” Cornélia era uma das mais antigas e poderosas de Roma, com grande influência sobre os maiores núcleos de poder. Quando Cipião Africano assumiu a campanha de Roma contra Cartago na Terceira Guerra Púnica (149 a.C. - 146 a.C.), Políbio o acompanhou. Sua proximidade dos acontecimentos, gerada pelos vínculos afetivos, e sua condição não ameaçadora, vez que se tratava de um refém grego, possibilitaram a Políbio uma perspectiva única diante de decisivos fatos históricos. A conquista e aniquilação de Cartago e muitos outros. Essas reflexões foram publicadas na obra Histórias.

            Infelizmente, dos quarenta volumes originais, apenas cinco chegaram completos à atualidade. Na Europa, a obra somente chegou no Século XV. Em sua época, influenciou, dentre outros, Cícero, considerado um dos maiores intelectuais de todos os tempos. Na época da fundação do Estado Moderno, seu pensamento é fortemente percebido na obra de Montesquieu e de Maquiavel.

            Uma das designações mais interessantes trazidas por Políbio na obra Histórias (Livro IV) é a de “anaciclose política”. Do grego “anakylitikos”, anaciclose significa o que se pode ler da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Políbio percebia ciclos na ascensão e queda de civilizações e de formas de exercer o poder. Listava o processo da seguinte maneira: 1 – Monarquia, 2 – Reinado, 3 – Tirania, 4 – Aristocracia, 5 – Oligarquia, 6 – Democracia e 7 – Oclocracia (governo da multidão).

            Quando nos deparamos com a realidade política brasileira, muitas vezes perdemos a perspectiva histórica. Esquecemos que, mesmo sendo a Novíssima República, inaugurada com a Constituição Federal de 1988, extremamente jovem, foi marcada por muitas escolhas diferentes. Nesse período, o País escolheu um presidente jovem e impetuoso para contrapor o estilo dos homens idosos dos governos do Regime Militar. Depois disso, escolheu um homem mais maduro, com perfil intelectual, em contraponto ao indicado despreparo do jovem. Fartos do intelectual, que falava sem ser compreendido, deu oportunidade para seu oposto, um líder sindical, de discurso popular. Ainda nesse processo, sabendo da necessidade de mudanças, a mesma corrente política forneceu um nome feminino, com origem nos quadros técnicos. Ofereceu a mudança, para que outra corrente política não oferecesse.

            O que quer o eleitor brasileiro hoje? Certamente, essa pergunta pode ser respondida se identificarmos o que ele quis nas últimas eleições e quais as lições que tirou desse processo. A maior parte dos partidos está longe de ter uma estratégia madura para apresentar um bom nome à presidência. Isso porque não fomentaram uma etapa real de prévias. Não testaram suas teorias na prática da política, apenas repetindo nomes desgastados. A indicação atropelou a escolha. Façamos votos que a alternância de ciclos possa ocorrer dentro da democracia, e que a falta de alternativas não implique o fim do próprio ciclo democrático brasileiro.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. A anaciclose política de Políbio. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 29 junho 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591