A chave de Alexamenus

           Da vastidão do infinito, esta é a constituição de nossa maior prisão. Nela, o carcereiro é especialmente cruel, pois vigia de perto até mesmo a menor fagulha de pensamentos. Minutos, dias, meses ou anos, não há defensor ou juiz que possa ser invocado, intervalo para troca de guarda, nem limite para crueldade. Basta uma lembrança para os piores sentimentos apertarem nossa garganta, percorrerem o estômago e o intestino, fazendo evaporar pela superfície de nossas feições o mais absoluto e indecifrável vazio. Gritar? Não, não é possível, estamos asfixiados por uma mão firme, enquanto é sussurrado em nossos ouvidos que nenhuma daquelas amarras pode ser alcançada por quem quer que seja.

       Alguns a chamam de consciência, outros de inconsciência, mas ninguém negará que os maiores sofrimentos que sentimos são baseados em construções individuais cuidadosamente elaboradas. É como se uma pequena goteira, quase imperceptível, agisse, tempestade após tempestade, tentando fazer ruir a forte estrutura.

          Os filósofos gregos clássicos estruturavam suas obras por meio de diálogos. Por volta do Século IV a. C. a técnica foi designada como maiêutica socrática, embora seja atribuída sua origem a alguém anterior a Sócrates, um homem chamado Alexamenus. Muito pouco se sabe sobre ele, mas o método basicamente permitia que uma pessoa pudesse projetar contrates de pensamento, enfrentando contradições, estivesse ela em grupo ou sozinha. Esse modelo também foi designado como dialética (διαλεκτική).

          Alexamenus deve ter sofrido muito para ter conseguido sistematizar uma forma de enfrentar a maior inimiga do ser humano: sua mente. Não, não creio que tenha produzido algo assim por amor ao próximo ou vontade divina. Provavelmente, enfrentou suas mais arraigadas convicções por não suportar sofrer. Não se tratavam das incertezas quaisquer criadas por outros, mas as interrogações mais furtivas e persistentes que alguém pode confrontar: suas próprias dúvidas.

          Talvez na época de Alexamenus o ambiente tenha favorecido essa descoberta de si mesmo. O Cosmos (κόσμος) era visto como um sistema tendente à ordem, à beleza e à harmonia. A busca da razão de existir junto ao Cosmos era algo estimulado e dotado de um componente místico religioso.

       Em nossa época, a velocidade do conhecimento engana todos, na medida em que se banaliza o exercício de nossas buscas mais íntimas. Nesta caminhada podemos ter auxílios exteriores, mas não se trata de uma obra coletiva. Em nossa mente, nos mais estreitos espaços, em meio as mais escondidas lembranças, somente nós podemos estar. A autonomia (αὐτόνομος) é a palavra que melhor nos descreve, pois, no fim das contas, constituímos nossas próprias leis e exercemos nossas escolhas sobre elas.

      Não é fácil dialogar consigo mesmo, é muito mais conveniente se unir ao sádico exercício de autoflagelação ou, simplesmente, fugir. Existem até aqueles que acreditam ser melhor terceirizar suas responsabilidades para alguma figura malévola, mesmo que ninguém tenha jamais escutado o demônio por outro meio que não a voz humana.

          É difícil porque não é um diálogo de uma hora com nossos melhores amigos, mas um contato de uma vida com nosso pior inimigo. A vitória do dia anterior (por mais brilhante e pública que seja) não garante que será possível vencer no dia de hoje. Cada um de nós precisa lidar com si mesmo e com os desafios que esta existência nos traz.

       A chave de Alexamenus e muitas outras ferramentas de homens e mulheres sábios (e também imperfeitos e contraditórios) estão dispersas no fabuloso aglomerado de experiências humanas. Alguém pode apresentá-las a você, mas ninguém poderá usá-las por você.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. A chave de Alexamenus. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 9, 22 dezembro 2017. ORCID-IDhttps://orcid.org/0000-0003-4259-4591