A compulsão pelas ideias na outra política

 

            Existem dois extremos da política no mundo. Em um desses extremos há uma política frequentada por pessoas que, com um considerável grau de cultura, tentam racionalizar o processo de busca pelo poder, utilizando-se de modelos teóricos complexos e do debate respeitoso. No outro extremo, há a outra política, quase sempre ignorada pelos intelectuais, que difunde suas ideias de forma menos convencional, ultrapassando os limites impostos pela ordem constitucional, nos caminhos do que é ilegal ou, simplesmente, não civilizado.

            Confesso que durante muito tempo eu permaneci distante dessas manifestações humanas, por considerá-las incapazes de gerar qualquer argumento razoável. No Direito, constantemente formulamos conclusões partindo de argumentos gerais, segundo uma fórmula que tem como elemento central a dedução. Uma herança grega que remonta a Aristóteles, que apoiava a maior parte de sua lógica nos silogismos.

            Minha proximidade com outras ciências tem contribuído para que eu também considere outro caminho ao conhecimento, o método indutivo. Dessa perspectiva, as conclusões são fundamentadas a partir de uma série expressiva de elementos individuais. Dentro desse modelo, designado como empírico, a observação dos fatos é o que ampara a resposta aos questionamentos, ainda que se preserve certo grau de dedução.

            Essa outra política, portanto, só pode ser realmente compreendida se utilizarmos um método preponderantemente indutivo, já que as respostas surgem pela análise de um grande número de comportamentos individuais similares.

            Eu tenho me dedicado a ler as muitas manifestações de natureza não civilizada que as redes sociais têm difundido (no Brasil e fora dele). Se abstrairmos o natural desconforto desse exercício, podemos constatar que um número expressivo de pessoas tem demonstrado uma verdadeira compulsão na defesa de seus pontos de vista. Seja qual for o tema, política, religião ou futebol, percebe-se que a falta de proporcionalidade não é decorrente apenas da falta de acesso à educação, mas é especialmente resultado de uma relação compulsiva com as ideias. E essa compulsão tem sido originada no sentimento de uma quase desesperada busca pelo fortalecimento de referenciais e por identidade em meio a uma realidade que aparenta transformações cada dia mais rápidas e menos compreensivas.

            Um prestigiado professor italiano chamado Giacomo Marramao tem identificado um amplo processo de dessecularização até mesmo em países com alto grau de desenvolvimento humano. Segundo ele, em nossos dias, muitos estariam fazendo, consciente ou inconscientemente, um caminho inverso ao que observamos no período do iluminismo e do florescimento das ciências, porque, de alguma forma, esse grande fluxo de informações contraditórias tem acarretado profundo desconforto.

            As pessoas que marcaram os grandes passos da construção do conhecimento humano sempre defenderam suas ideias com afinco, mas só chegaram ao patamar de confiança depois de percorrerem um longo caminho de dúvida moderada. Elas sabiam que era a coerência dos argumentos, não a intensidade desproporcional de sua defesa, que garantiria o convencimento.

            A ação dos destemperados das redes sociais é algo muito diferente. Trata-se de uma imposição interna irresistível, como a coceira de um cão sarnento. Tal como a patologia canina, o exercício incute um prazer momentâneo, ainda que gere um agravamento progressivo do quadro, não percebido pelo enfermo. Esse fenômeno não vai desaparecer apenas porque nos desagrada, qualquer um que pretenda vivenciar a democracia deve saber que na outra política, outra relação se impõe. Mas, atenção, devemos ficar atentos, quando na nossa pele, essa sarna, muito contagiosa, não deixa marcas visíveis aos nossos olhos.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. A compulsão pelas ideias na outra política. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 4, 30 março 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591