A conexão com as próprias ideias no mundo das redes

            A Bíblia, no Livro Gênesis, trata da tentativa humana de fazer uma grande torre que pudesse tocar o céu, unindo todos os seres humanos sob uma mesma língua. Constatou o próprio Deus: “agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer” (11:6). O projeto, segundo o relato, acabou frustrado e os seres humanos logo deixaram de compreenderem-se. Quem causou isso, segundo o mesmo livro da Bíblia, foi Deus: “ali confundiu o Senhor a língua de toda a terra, e dali os espalhou o Senhor sobre a face de toda a terra” (11:8).

            Não é preciso crer no cristianismo, no judaísmo ou no islamismo para identificar a sabedoria da narrativa sobre Babel (sim, com algumas divergências, o conteúdo do Livro de Gêneses é compartilhado por essas três religiões abraâmicas). Sua reiteração, passados tantos séculos, lhe dá credenciais à reflexão. Digo mais, ela nos ajuda a investigar um aspecto fundamental do moderno fenômeno das redes sociais: a desagregação dos grupos.

            Os seres humanos são muito poderosos quando esquecem suas diferenças e se comunicam em prol de objetivos transcendentes. Por outro lado, os acompanha, desde o início dos tempos, a incapacidade de coexistência, quando o aumento do número de pessoas vem acompanhado da inevitável multiplicação das ideias. Meu Professor de Antropologia, Professor Dr. José María Pérez Collados, diria que não fomos moldados para as sociedades, porque, no decurso de milhões de anos, convivemos em pequenas comunidades. Essa marca ainda nos acompanha.

            Aponto isso tudo para chegar à conclusão de que estamos artificialmente acelerados na era das redes sociais, um fenômeno de apenas uma década. Esse processo está gerando grandes vantagens, mas também enormes desvantagens, dada nossa predisposição ao uso de ideias como forma de diferenciação e identidade.

            “We are abjectly credulous by nature, and instinctively accept the verdicts of the group” (em tradução aproximada: “nós somos execravelmente crédulos por natureza, e instintivamente aceitamos os vereditos do grupo”), constatou, em 1921, Benjamin N. Cardozo, um dos mais brilhantes juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos da América – um dos homens a trazer a reflexão sociológica para o mundo normativo, um quase desconhecido das academias brasileiras.

            E segue o jurista, em sua obra “The nature of the judicial process” (“A natureza do processo judicial”), descortinando a fragilidade de muitas convicções humanas profundas: “We are suggestible not merely when under the spell of an excited mob or a fervent revival, but we are ever and always listening to the still small voice of the herd, and are ever ready to defend and justify its instructions and warnings, and accept them as the mature results of our own reasoning” (em tradução aproximada: “nós somos sugestionáveis ​​não apenas quando sob o encanto de uma multidão excitada ou um avivamento fervoroso, mas estamos sempre e constantemente ouvindo a voz ainda pequena do rebanho, e estamos sempre prontos para defender e justificar suas instruções e advertências, e aceitá-las como os resultados maduros de nosso próprio raciocínio”).

            Não há uma fórmula pronta, e não se trata de uma negação da tecnologia. Há apenas a identificação do princípio de que, nessa conexão gigantesca, nessa profusão de ideias, o menos é mais. Devemos nos desconectar do mundo o suficiente para nos conectarmos com nós mesmos e não sermos apenas servidores remotos a repetir artificialmente as ideais e o comportamento dos outros.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. A conexão com as próprias ideias no mundo das redes. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 7, 01 dezembro 2017. ORCID-IDhttps://orcid.org/0000-0003-4259-4591