A desistência como exercício da liberdade

            Quem procurar o sentido da palavra “desistir” em algum dicionário de língua portuguesa, vai se deparar com os significados mais conhecidos do termo, como o de “abster-se ou renunciar de modo voluntário”, o de “desdizer” ou o de “desistir de alguém”. Se percorrer a lista até o final, também encontrará um significado menos conhecido, ainda que de origem popular, o de “purgar ou defecar”.

            O ato de desistir está ligado à ideia de fracasso e de contradição, porque só desiste de algo alguém quem, antes, fazia alguma coisa. Só desiste de alguém quem, anteriormente, estava ligado a uma pessoa. Só desdiz quem, em outro momento, disse. Só purga ou defeca quem já ingeriu e se nutriu ao limite do nutriente.

            Não somos educados para desistir, pois o discurso que mais encanta é o da persistência, a ação que leva à vitória. Mas a palavra “persistência” não nos ensina muito, significa “a qualidade do que dura”. Infelizmente ela não nos diz quanto tempo é necessário para avaliar se algo durou. Os atos de uma vida humana têm diferentes períodos de maturação, e a persistência é um componente importante para avaliar se potenciais foram atingidos, dentro de um parâmetro de razoabilidade. Mas, quando ultrapassamos esse ponto, a persistência passa a ser teimosia.

            Por definição, a teimosia significa o “apego obstinado às próprias ideias”. O sucesso dessa prática reiterada pode até ser recompensado, mas essa vitória contrariará o senso comum. O teimoso tem incentivos somados para se orgulhar do objeto de seu apego e razões multiplicadas para esconder os frustrantes resultados de suas tentativas.

            A teimosia é um estágio avançado da persistência, no qual quem tenta se lança para além do razoável, mas até mesmo ela tem um limite: a capacidade do teimoso em acreditar. Em algum momento, essa energia chega ao final e é necessário encerrar o ciclo. O teimoso tem um inimigo escondido em seu senso crítico, usando a noção de fracasso como instrumento de tortura. Sim, fracasso, uma palavra negativa que nada mais significa do que “não obter o que se pretendia”.

            Desistir sem tentar ou sem tentar o suficiente pode até não ser algo positivo, mas desistir depois de tentar de modo persistente é algo que se impõe até para quem levou sua ação ao extremo, sendo considerado teimoso, sem obter o que pretendia. Desistir diante do fracasso é um ato de coragem de quem observa as potencialidades do mundo e não se deixa escravizar pelas escolhas já feitas.

            Desistir é um ato de liberdade daquele que se mantém atento às possibilidades do mundo e que compreende ser possível realizar seus desejos, por meio de tentativas diversas. Não é apenas a ação daquele que nada conseguiu. Se fracassar significa “não obter o que se pretendia”, podemos considerar que fracassado é também aquele que deixa algo bom na busca de algo melhor. E quem pode ser criticado por buscar algo assim?

            Cursos universitários, relacionamentos amorosos, empregos, religiões, relações de amizade, partidos políticos, cidades, estados, países, profissões, qualquer coisa é passível de um ato de desistência, quando constatamos que fracassamos. Isso faz parte da vida, e não importa em que estágio dela alguém esteja, nem quantas relações invisíveis aparentemente impeçam, sempre é possível desistir.

            Um ser humano não pode ser definido apenas pelos adjetivos fracassado ou vencedor. Um ser humano não se resume a isso, a qualidade que realmente importa é a felicidade. Considerado o pressuposto inegociável da legalidade e da Ética, a felicidade é a maior medida de coerência que nós devemos observar!

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. A desistência como exercício da liberdade. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 27 abril 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591