A difícil arte de argumentar e o cafetão das dúvidas

         É difícil sustentar um argumento, provar que algo é verdadeiro. Escutei, recentemente, um personagem da série “Designated Survivor” do “Netflix” fazer uma constatação interessante: “mesmo um relógio parado consegue estar certo duas vezes por dia”. Embora o ditado seja antigo, já foi utilizado pelo brasileiro Paulo Coelho em seu livro “Brida”, antecedido pela constatação de que “não existe nada de completamente errado no mundo”.

         Percebo essa dificuldade de determinar se argumentos são suficientes quando envio alguma pesquisa científica para publicação. Os trabalhos científicos são analisados sem que os avaliadores conheçam o autor, de modo a preservar sua imparcialidade. Não raro, um mesmo artigo recebe críticas devastadoras de um avaliador juntamente com contundentes elogios de outro. Sim, especialistas em um ramo do conhecimento absolutamente específico divergem quanto à pertinência de argumentos.

            Já passei por diversas fases em minha reação à discordância enfática, seja no âmbito acadêmico, seja na vida cotidiana. No início, sentia-me compelido a revidar, emotivamente, de forma mesquinha e desproporcional. Depois, passei por uma fase de aceitar tudo, cegamente, como se nada do que eu tivesse construído tivesse o mínimo valor e eu caminhasse pela rua como um carro alegórico dedicado à fraude. Ia comprar pão e, quando a atendente entregava o troco, quase conseguia vê-la balbuciar algo sobre a impossibilidade de relacionar teorias filosóficas com sociológicas, ou alguma outra crítica que já tenha recebido em meus trabalhos. Arrastava o saco de pães em silêncio, remoendo a impossibilidade de fazer uma réplica ao meu crítico anônimo, sem dar qualquer atenção aos elogios do outro avaliador ou ao fato do trabalho ser sido, ao final, aceito.

            Foi estudando história que percebi algo precioso: grandes descobertas já foram feitas sem que seus idealizadores tivessem um total controle dos métodos científicos ou sequer tivessem sido reconhecidos por sua contribuição. Paul Karl Feyerabend (1924 -1994) evidenciou isso na obra “Against method” (“Contra o método”), ao lembrar que muitos avanços científicos ocorreram quando cientistas deixaram de observar os rigores da metodologia, pagando um alto preço por isso, para construir uma forma própria de justificar seus argumentos.

             Percy Lebaron Spencer (1894-1970) estava testando um protótipo de radar, quando viu que a barra de chocolate que estava no seu bolso derreteu. Testou o aparelho com outros alimentos e acabou criando o forno de micro-ondas. Algo parecido ocorreu com Wilhelm Conrad Röntgen (1845- 1923). Ele trabalhava em um tubo de raios catódicos, quando percebeu que esse tubo, mesmo coberto, gerava efeitos em fluorescente. Descobriu um novo tipo de radiação que fixava diferentes impressões em uma chapa fotográfica. Tinha descoberto os raios-x. Assim também ocorreu com Constantin Fahlberg (1850-1910), que descobriu a sacarina (adoçante), por ter se esquecido de lavar as mãos antes do jantar, depois de suas pesquisas de laboratório com o alcatrão de carvão.

            Hoje, desenvolvi uma relação de cafetão com as críticas (raciocínio que incorporei do texto “O gigolô das palavras”, de Luiz Fernando Veríssimo). Não as deixo que roubem o movimento de minha vida. Confronto meus argumentos com as críticas, sem emoção, e as faço me servirem da melhor forma possível. Como o mais descarado e inescrupuloso dos gigolôs, mesmo que uma crítica tente atravessar sua lâmina em meu coração, esbofeteando meu rosto e me negando, aos prantos, a parte que me cabe, a recomponho da melhor forma que eu posso, seco suas lágrimas, arrumo sua roupa, e a ponho ao meu serviço. Constato que somos inseparáveis, pois não há argumento, científico ou não, sem a dúvida que acompanha a crítica. Ela é a única constante nas grandes descobertas, sejam elas propositais ou não.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. A difícil arte de argumentar e o cafetão das dúvidas. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 7, 16 fevereiro 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591