A insustentável leveza do ser

“E eu poderia suportar, embora não sem dor, 
que tivessem morrido todos os meus amores, 
mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos.” 

Vinicius de Moraes

 

          A finitude é algo tão incômodo para o ser humano que em algumas culturas como a nossa, praticamente finge-se que ela não existe. É algo para densos discursos filosóficos. Em termos religiosos, nos apegamos majoritariamente a ideia de uma hipotética – nem tanto para alguns - continuação da existência atual, com o bônus da eternidade. Ou a alguma crença em idas e vindas como no espiritismo, algo já esquecido na França, mas bastante popular no colorido sincretismo religioso brasileiro.

          “Se o ser humano pensasse sobre sua evidente finitude, certamente se paralisaria, não conseguiria realizar nada”, ouvi dia desses de um famoso médico coordenador de um exitoso núcleo de captação de órgãos para a doação. Esse certamente tem contato com a finitude do ser humano intensamente.

           “Se nos dermos conta de que podemos morrer a qualquer segundo, iríamos querer morrer como um idiota?”, perguntou várias vezes Don Juan, o xamã e mentor de Carlos Castañeda, ao longo dos vários volumes da mítica e mística obra.

           A visão do brujo é o oposto da do médico. Don Juan nos ensina que não devemos desperdiçar um único segundo de nossa breve existência em ações que reputamos desnecessárias. Com aguda noção de sua finitude, ciente de que a morte está a uma pequena distância à sua esquerda e pode tocar-lhe o ombro a qualquer instante, o homem vive de forma mais focada. Não irá querer morrer fazendo algo que lhe desagrada e que não respeita.

           O leitor, que a esta altura já me conhece de alguma forma, saberá que esposo a visão de Don Juan.

           São outras, entretanto, as penas culpadas por me darem uma visão agudamente lúcida do horror e da angústia da finitude. Gabriel García Márquez, em “Doze Contos Peregrinos”, nos relata um sonho que certa vez teve quando morava em Barcelona. Sonhou que havia morrido e que participava a pé, com seus amigos latino-americanos, de seu próprio funeral.  Estavam todos muito contentes, ele inclusive, de estarem reunidos depois de tanto tempo. Foi somente na despedida da algazarra que lhe veio o peso da morte. Um de seus amigos, na hora em que todos saíam, disse-lhe em voz dura: “você não. Você fica”.  García Márquez se assombra então com a mais desoladora definição de morte para ele (e pra mim também): “descobri ali que morrer é nunca mais poder estar com os amigos”.

           Agradou-me um pouco mais a solução do mineiro Murilo Rubião em seu icônico “O Pirotécnico Zacarias”. Seu personagem, um pouco mais rebelde que o defunto de García Márquez, após ser vitimado em um atropelamento, recusa-se a morrer e vai beber com seus algozes. Perambula eternamente pela cidade e mesmo que dele as pessoas eventualmente fujam, resiste obstinadamente a despedir-se dos amigos.

           Aos que ainda creem que vale a pena perder amigos por causa de um julgamento de um político, lembro-lhes da dica do colunista e humorista brasileiro José Simão: “brigar por política no Brasil é como ter uma crise de ciúmes na zona. Não tem virgem na política no Brasil.” Isso inclui suas postagens nas nuvens da pós-verdade.

           Não morram como idiotas. “A vida é muito curta para ser tão pequena”, já dizia outra voz responsável por minha visão sobre a finitude, o sempre primorosamente atormentado Fernando Pessoa.

           Em 2018, 2 a cada 3 Sul-Americanos vão escolher um presidente novo. Espero que não se emule América Latina afora o contexto narrado pelo meu grande amigo e irmão argentino, o defensor público Ricardo Golly, quando descrevia os tempos sombrios de nossos pais nas últimas ditaduras argentina e brasileira, nas quais “o simples fato de se pensar, de se ser generoso, de se ser humano, era visto como subversivo.”

           Que medo que tenho de anos eleitorais em nossos países! Tentávamos resolver problemas sociais com o código penal na mão. Como em uma crônica de um fracasso anunciado, ao invés de mudarmos a lógica, a recrudescemos: por que não colocar tanques e militares armados com fuzis apontados para gente simples e inocente nas ruas e becos das favelas da cidade que se esforça pra se convencer que é maravilhosa?

           Uma criança não deveria conhecer o cano de um revolver de frente.

           O bom é que sempre que lhes escrevo, a esperança volta. Vinicius certamente tinha razão, “a gente não faz amigos, reconhece-os”.

           Nunca contei tanto os dias para uma eleição democrática com medo de que ela nunca chegue.

  

          Plauto Cardoso – Escritor, docente, investigador y abogado, en las áreas de Derecho Constitucional, Derecho Procesal Civil, Derechos Humanos, Derecho & Política y Derecho & Literatura/Cine. Ama Gualeguaychú.

Texto publicado originalmente em espanhol no Jornal El Argentino
Como citar: CARDOSO, Plauto Cavalcante Lemos. La insoportable levedad del ser. El Argentino. Gualeguaychú, 04 março 2018. Disponível em: https://diarioelargentino.com.ar/noticias/183798/Noticia