A inteligência emocional do Sr. Bachi

Vagner Felipe Kühn

            Não é difícil encontrar vídeos na internet onde Luiz Felipe Scolari (gaúcho de Passo Fundo) reage, de modo irritado, às perguntas dos repórteres. Isso ocorreu no período de 2001–2002, quando foi campeão, e no período de 2013–2014, quando viu o sonho do campeonato ser fulminado por uma das maiores derrotas sofridas pela seleção brasileira de futebol masculino. Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga (gaúcho de Ijuí), não foi diferente, no período de 2014–2016 e no de 2006–2010, apresentou descontrole ao lado do campo e frente aos repórteres. Mano Menezes (gaúcho de Passo do Sobrado), que dirigiu a seleção entre 2010 e 2012, seguiu estilo parecido. 

       Até então, muitos diziam que esse era o estilo dos técnicos gaúchos. Compreendiam que, para desempenhar seriamente a tarefa, era necessário confrontar as dificuldades com a cara fechada. A seleção brasileira acumula narrativas sobre jogadores que fugiam da concentração. É lembrada a célebre frase de Romário, que contava sempre ter escapado de todas as concentrações, inclusive da seleção. Técnicos gaúchos seriam, portanto, o antídoto à juventude e impetuosidade dos jogadores, excessivamente estimulados pelos milhões de suas contas bancárias e pela quase idolatria do público.

            Quis o destino que outro treinador gaúcho, Adenor Leonardo Bachi (gaúcho de Caxias do Sul), conhecido por todos como Tite, ensinasse que não existe maior seriedade e autoridade que a disposição para responder proporcionalmente às críticas. O técnico da seleção do México, o colombiano Juan Carlos Osorio, disparou expressões duras contra a arbitragem e contra Neymar, o principal jogador da seleção. Tudo estava à disposição de Tite para revidar, mas ele não fez isso. Reconheceu os méritos do técnico adversário e relevou as frases duras, dizendo que eram decorrentes das circunstâncias do jogo.

            Independentemente do resultado dos próximos jogos, Adenor Leonardo Bachi já marcou seu nome entre os grandes ícones do esporte nacional. Além disso, contribuiu para desconstruir uma imagem que paira no inconsciente coletivo nacional de que somos um povo excessivamente aguerrido em nossas convicções.

            Nos anos noventa, Daniel Goleman lançou um livro chamado “Inteligência emocional”, onde propõe que seja redefinida a noção de inteligência. Para ele todos nós temos duas inteligências, a racional e a emocional, sendo a capacidade de lidar com os estímulos emocionais tão importante quanto a capacidade racional. Refere que “não existe correlação entre QI e empatia emocional, pois eles são controlados por diferentes partes do cérebro”.

            Daniel Goleman fala das amígdalas cerebrais, um grupo de neurônios de aproximadamente três centímetros, responsável por nossas respostas rápidas (não confundir com a amígdala rino-faríngea, que, por vezes, inflama e gera desconforto na garganta). Ele explica que, ao longo dos milhões de anos de evolução do cérebro humano, fomos desenvolvendo camadas que interagem e se sobrepõem, mas que não apagam as heranças antigas. Na natureza, era importante ter um centro de resposta rápida para decidir se lutaríamos ou se fugiríamos.

            Essa habilidade, de grande valor evolutivo, infelizmente, poderia gerar problemas em nossa realidade atual, quando reagimos a um ataque verbal, como se estivéssemos respondendo a um tigre-de-dente-de-sabre. Daniel Goleman ensina que “o cérebro emocional responde a um evento mais rapidamente do que o cérebro pensante”, sendo imprescindível desenvolver a habilidade de fugir dessas armadilhas.

            Adenor Leonardo Bachi venceu ao não responder com seu cérebro emocional, demonstrando que, mesmo no calor do esporte, em um dos espaços mais apaixonados que existe, podemos assumir as rédeas do nosso comportamento. Podemos ser uma resposta autônoma e não uma mera reação, amedrontada ou raivosa, diante das provocações do mundo.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. A inteligência emocional do Sr. Bachi. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 06 julho 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591