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A kafkiana metamorfose do eleitor em militante

Vagner Felipe Kühn

            Democracia, não há palavra mais valorizada; política, não há palavra mais desprezada. Sem dúvida alguma, essa é a grande contradição de nossa época. Se todos querem o bem da sociedade, por que há tanta oposição de ideias? Respondo: por causa das escolhas de significados.

            No que se refere ao ser humano, nada é tão claro quanto parece. Vivemos em um verdadeiro bando de palavras que se movimentam como aves no céu, em uma sincronia que desafia a racionalidade. Somos construídos pelos significados até que passamos a construir, nós próprios, os sentidos das coisas.

            Os publicitários, nas campanhas eleitorais, sabem que esse processo é, muitas vezes, baseado em questões simples. Uma postura correta ao falar, um tema escolhido entre tantos, a idade, o sexo, a orientação sexual, são todos fatores a construir o carisma. E, uma vez estabelecida a relação entre quem manda e quem obedece, nasce a figura do militante.

            Segundo Karl Emil Maximilian Weber (1864 – 1920), um dos mais importantes sociólogos da história, a autoridade carismática está “baseada na devoção a um específico e excepcional ato de heroísmo, ou a um carácter exemplar de uma pessoa, o que lhe legitima a autoridade”. O poder está baseado, portanto, em autoridade!

            Considero que o eleitor médio é, na maior parte do tempo, amplamente cético em face da política e das propostas dos políticos, relegando todos à mesma classificação de descrédito. Por outro lado, um fenômeno interessante ocorre nas proximidades do pleito. Algo que ocorre com a periodicidade das eleições e já existia muito antes do fenômeno das redes sociais: a kafkiana metamorfose do eleitor em militante. Sim, da mesma forma que o personagem principal da obra “Metamorfose” de Kafka transforma-se em um inseto, sem preocupações relacionadas à nova condição, o eleitor também quase não percebe que se tornou um militante.

            Quem é o militante? É um eleitor que fez escolhas quanto a certos significados e se deixou apaixonar pela autoridade carismática de tais ideias. E, como apaixonado, ele próprio é um difusor convincente das ideais que defende, pois a emoção que acompanha cada palavra é revestida de grande convicção.

            Infelizmente, o problema é que a paixão tende a durar até que o político vitorioso precise sair do mundo das convicções, onde a penumbra do discurso favorece a auto-ilusão do militante, para fazer escolhas concretas. Nesse momento, renova-se a segunda grande paixão do eleitorado: o ódio à política.

            Considero que o eleitor tem direito a ser inocentado quando é levado às teias da militância pela primeira vez, apaixonando-se para, logo em seguida, ser arrebatado pela realidade do exercício do mandato. Mas, na segunda oportunidade, não há desculpa. Nada pode salvá-lo da responsabilidade de ter ido para a batalha mais importante da democracia com antolhos.

            Creio que devemos encontrar um meio-termo entre a relação de amor e a de ódio. Por um lado, a militância não pode drenar a cautela do eleitor. Por outro lado, o término das eleições não pode ser o fim de nossa responsabilidade política, pois não devemos nos desiludir completamente ao constar que mesmo o melhor dos políticos não tem condições de transformar todos os sonhos em realidade.

            Um eleitor pode ser filiado a um partido, defender uma coligação, colocar adesivo no carro, utilizar camiseta com o número do partido ou o rosto do candidato, mas deve sempre carregar consigo o repelente da metamorfose em militante: o juízo crítico para, eventualmente, compreender que estava errado e a capacidade de discordar de parte das ações ou palavras do candidato que pretende eleger.     

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. A kafkiana metamorfose do eleitor em militante. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 26 outubro 2018. Disponível em: https://www.preceptorkuhn.com.br/a-kafkiana-metamorfose-do-eleitor-e