A morte de Walter Benjamin e a lição da esperança

            Seguindo a Rodovia N-260 no norte da Espanha, região da Catalunha (ou país Catalunha, para os que, como eu, reconhecem sua independência), antes de chegar à fronteira com a França, está a cidade de Portbou. Ela está em uma pequena enseada que tem, em sua extremidade esquerda, no lado francês, um bunker alemão da Segunda Guerra Mundial. A ditadura de Franco, na Espanha, tornou o país um aliado, razão pela qual não foi invadido.

            Acompanhando o caminho da Rodovia N-260, há uma estrada de ferro, sendo que a pequena localidade de Portbou tinha uma estação que também era um ponto de controle da fronteira, parada obrigatória para muitas pessoas que fugiam do conflito. Em setembro de 1940, um grupo de pessoas tentou atravessar para a Espanha, dentre os quais estava o judeu Walter Bendix Schönflies Benjamin (filósofo, crítico literário, tradutor e ensaísta).

            Walter Benjamin estava sendo auxiliado remotamente por outro nome conhecido, Theodor Adorno, que havia providenciado documentos para que, passando pela Espanha, ele chegasse até os Estados Unidos da América. Tudo isso está narrado na obra “Minha travessia dos Pirineus”, de Lisa Fittko, que dedica um capítulo a Walter Benjamin.

            Temeroso de que o fato de ficar retido em Portbou pela polícia espanhola poderia significar a deportação para França ocupada pelos nazistas, no dia 26/09/1940, Walter Benjamin cometeu suicídio, ingerindo uma grande quantidade de morfina. No dia seguinte, a autorização para ingresso na Espanha foi concedida e os companheiros de fuga seguiram viagem.

            No alto de uma colina, de frente para o oceano e para as ruinas do bunker alemão, está enterrado Walter Benjamin. Ali fica o cemitério da cidade e a capela de Sant Crist. Definitivamente, um dos lugares mais belos e tristes que já conheci.

            Em vida, ele escreveu sobre “o poder da narração e das palavras sobre o corpo” e morreu vencido pela desesperança, um dia antes de ser concedida a autorização que representava um caminho para liberdade. Trata-se de uma vida que se converteu em uma teoria sobre a necessidade de esperança.

            Mesmo um dos mais importantes pensadores da modernidade, que aprofundou como poucos a compreensão da comunicação na história e na cultura, foi vencido pelas palavras de desesperança. Em sua carta de suicídio, a primeira frase bem poderia ser a última, porque ela demonstra o apagar de uma vida: “Em uma situação sem saída, não tenho escolha senão terminar”.

            Essa não é uma reflexão sobre a morte ou a condenação da atitude de Walter Benjamin, mas a constatação de que a esperança é uma utopia necessária. E que a vida pode, constantemente, surpreender até mesmo aquelas pessoas acostumadas à tragédia.

            A esperança não é alienação, porque ela não sobrevive na mentira. A esperança não é a certeza, porque ela não existe para deixar qualquer pessoa inflexível. A esperança não é religião, embora muitas religiões a tenham no centro de suas doutrinas. A esperança não é somente razão, porque a lógica facilmente pode ser manejada para nos trair. A esperança não é euforia, porque a euforia está destinada a se abrandar. A esperança não é a prevalência do bom sobre o ruim ou do bem sobre o mal, porque o bom e o bem podem emergir até mesmo do ruim e do mal.

            Não me atreverei a dizer o que é a esperança, pela simples razão dela representar uma espécie do gênero utopia - um estado ideal das coisas. Por outro lado, ouso difundir um alerta: cultive sua esperança, em uma situação limite, ninguém poderá fazer isso por você. Cada um de nós tem a capacidade de ter esperança.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. A morte de Walter Benjamin e a lição da esperança. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 7, 03 novembro 2017. ORCID-IDhttps://orcid.org/0000-0003-4259-4591