A profecia de Robert Louis Stevenson

            A obra, de autoria de Robert Louis Stevenson, intitulava-se “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde”, quando foi publicada no Reino Unido em 1886. No Brasil, seu título foi alterado, passando a ser conhecida como “O Médico e o Monstro”. É interessante constatar, entretanto, que no título original não há referência a monstro, mas ao “Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde”. O “Sr. Hyde” é a face oculta do Dr. Jekyll. O nome deriva do verbo “hide”, que em inglês significa “esconder”, “ocultar”. Trata-se, assim, de uma obra sobre os aspectos ocultos da personalidade dos seres humanos, mesmo aqueles que são vistos como cidadãos exemplares e virtuosos.

            O Dr. Jekyll, renomado médico, deparou-se com as duas faces de sua personalidade, reconhecendo que tanto sua condição mais aparente quanto a escondida representavam partes de um todo indissociável: “Eu era o mesmo quando, abandonando toda a moderação, me atirava para os braços da desonra, ou quando, trabalhando à luz do dia, promovia a ciência para aliviar a dor e o sofrimento”.

            Mas Dr. Jekyll não considera sua condição completamente singular. Do contrário, ele enuncia a descoberta da pluralidade que habita na personalidade humana: “atrevo-me a profetizar que no fim o homem será reconhecido como um ser habitado por seres múltiplos, incongruentes e autônomos”. Ele percebia que se tratavam de “ramos incongruentes”, “gêmeos opostos” que “lutavam continuamente entre si”.

            Como cientista, percebendo que o “corpo aparentemente tão sólido em que estamos aprisionados” poderia ser influenciado por certos elementos que “possuíam a capacidade de alterar e arrancar essa vestimenta carnal, do mesmo modo que qualquer sopro de vento agita o toldo de uma loja”, voltou-se à ciência para encontrar a paz que procurava.

            Quimicamente, Dr. Henry Jekyll conseguiu libertar o Sr. Edward Hyde e experienciou os prazeres escondidos muito além da civilidade e da culpa. Em sua confissão, Dr. Jekyll faz mistério sobre o caminho que, no final, seguiu: “Dentro de meia-hora, quando adotar de novo e para sempre essa odiosa personalidade, sei que me deixarei ficar sentado na minha cadeira, a tremer e a chorar, ou que continuarei a percorrer esta casa de cima abaixo (o meu último refúgio terreno), atacado por um êxtase de tensão e terror, atento a qualquer ruído ameaçador. Morrerá Hyde no patíbulo? Ou encontrará o valor suficiente para se libertar de si mesmo no último instante? Só Deus sabe. A mim isso já não interessa. Esta é a verdadeira hora da minha morte e o que acontecer daqui em diante só a mim diz respeito”.

            Essa fantástica obra pode ser interpretada de muitas formas, esta é a beleza da literatura, mas atrevo-me a dizer que se trata de um verdadeiro tratado sobre o espírito humano. Jekyll e Hyde não são a oposição entre o bem e o mal. Jekyll, sozinho, tem esses dois elementos para avaliar sua conduta. Hyde representa a renúncia ao parâmetro de julgamento que torna possível a civilidade, pois em sua existência essa crítica simplesmente não existe. Para Hyde há apenas seu desejo e os caminhos que o levam até sua concretização. Não há dúvida, não há hesitação e, principalmente, não há culpa.

            No cotidiano, muitos Mr. Hyde são aplaudidos, pois o resultado parece ser a única variável que importa para uma sociedade cada dia mais utilitarista e moldada pela fuga da autocrítica. Um mundo que celebra a química que liberta da culpa, seja ela lícita ou ilícita. Ninguém escolhe, publicamente, o mal no lugar do bem. Essa não foi, como eu disse, a escolha de Dr. Henry Jekyll. A opção monstruosa é esquecer que precisamos constantemente avaliar nossos atos, ignorando a força dos impulsos e do apego que carregamos. A profecia de Stevenson tornou-se realidade, alguns monstros têm em relação aos seus atos a mesma impressão de Mr. Hyde: “ao ver refletido esse feio ídolo do espelho, não sentia asco, mas apenas um arrebatamento de alegria”.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. A profecia de Robert Louis Stevenson. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 04 maio 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591