A solidão e o espelho de Machado de Assis

            A obra “O Espelho” de Machado de Assis representa a melhor definição da seguinte dualidade: quem nós somos e quem nós parecemos ser aos olhos dos outros. Foi publicado em 1882, muito antes dos debates sobre exposição nas redes sociais, mas, por refletir tão bem o espírito humano, permanece absolutamente atual.

            Poderia ser sintetizado como um diálogo íntimo no qual um homem narra a perda de sua identidade. O jovem que havia se tornado alferes e ganhado o reconhecimento de todos, especialmente de sua própria família, encontra-se só em uma casa no interior: “[...] Na manhã seguinte achei-me só [...] Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes [...] Nenhum ente humano [...]. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, [...]. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico [...]”.

            A solidão é um processo de desconstrução profunda, porque nos confronta com nossa dependência dos outros. Fama, fortuna, amizade, amor, absolutamente tudo que vivemos está marcado por uma profunda relação com os demais. Não há propriedade em um mundo deserto, porque mesmo o mais aparentemente individual dos direitos é, inegavelmente, social.

             Em sua solidão, o personagem de Machado de Assis depara-se com a importância de sua identidade exterior, moldada a partir dos olhares do mundo: “Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei.”.

            Ao fim, o alferes, sozinho, havia perdido sua identidade, pois não havia pessoa alguma para admirá-lo. E, sem a figura do alferes, restava apenas o vazio de alguém que havia se reduzido a uma profissão: “Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho”.

            A narrativa é sobre um alferes, o equivalente atual a um segundo-tenente, mas poderia ser sobre um médico, um advogado, um engenheiro, um professor, um agricultor, um empresário. Poderia ser sobre qualquer um. No final do Século XIX, Machado de Assis já explorava contornos profundos da condição humana, que se impõe verdadeiras fardas reluzentes para atrair olhares dos outros, na tentativa de que dessa imagem exterior surja sua própria identidade.

            O que fazemos é uma parte importante do que somos, mas se nos deixarmos reduzir a isso, temos um encontro marcado com o vazio. A idade, as doenças, as crises econômicas, muitas coisas determinam o fim de um ofício, uma profissão ou uma carreira, o mundo é cheio de riscos para os quais não podemos nos preparar, pois eles são uma contingência da própria vida.

            Quanto mais brilhantes forem os adornos das “fardas”, maiores as chances de eles ofuscarem a condição a eles preexistente, isto é, quanto mais importante, aos olhos do mundo, a função ou profissão, maior a probabilidade de que nosso reflexo leve parte de nossa alma. Hoje, temos difusores de imagens mais modernos, mas os seres humanos continuam os mesmos seres escravos seus reflexos.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. A solidão e o espelho de Machado de Assis. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 7, 09 fevereiro 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591