As vitórias do diabo na Terra de Santa Cruz

Vagner Felipe Kühn

            O diabo, sim, ele mesmo! Laura de Mello e Souza dedicou-se, em sua obra “O diabo e a Terra de Santa Cruz”, a revirar os registros do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal, para recuperar os processos canônicos que identificaram feitiçaria na então colônia brasileira. O livro, publicado pela excelente Editora Companhia das Letras, é a tese de doutorado da Dra. Souza, professora de história da Universidade de São Paulo.

       Tanto na Europa quanto na Colônia Santa Cruz (tempo depois, chamada de Brasil), as pessoas acreditavam no diabo. Sendo tão importante essa figura na crença popular, perpetuou-se algo já presente na tradição medieval. Como ensina a Dra. Souza, os homens “dominavam a vontade dos demônios, valendo-se dos serviços que estes lhe podiam prestar”. Mesmo em uma sociedade aterrorizada pelos cantos que descreviam os nove círculos do inferno, imortalizados na obra de Dante Alighieri, “Divina Comédia”, os feitiços eram entoados para que alguém se valesse dos poderes do demônio, negociando sua alma.

            O livro da Dr. Souza cita (dentre muitas outras interessantes informações) a Primeira Visitação do Santo Ofício ao Brasil, no Século XVI. Informações que também podem ser conferidas na obra “Primeira visitação do Santo officio as partes do Brasil pelo licenciado Heiter Furtads de Mendoca: confissoes da Bahia, 1591-92”, disponibilizada pela Universidade de Toronto, na internet.

            Na Primeira Visitação do Santo Ofício, em “20 de agosto de 1591, Paula Sequeira, de quarenta anos [...] confessou [...] o uso de palavras da consagração no ato sexual”. Também confessou ter utilizado “palavras da consagração”, “na boca do dito seu marido”, pois com a prática ele “amansaria e poria toda sua afeição nela”. 

            Depois disso, Isabel Roiz (outras vezes acusada de feitiçaria), confessou proferir as palavras “hoc est enim” em circunstâncias parecidas, adicionando a expressão “hoc est enim corpus meum”. Segundo ela, a prática “fazia endoidecer de amor e bem querer” a pessoa com a qual se fazia “ato carnal desonesto”.

            Nos mais antigos registros históricos relacionados à aplicação da Justiça de matriz europeia no Brasil observam-se, portanto, graves violações em prol da manutenção de relações afetivas. Na época, eram, indiscutivelmente, delitos. Devo ressaltar que essas pessoas, além da sanção terrena, tinham com certa sua penitência no segundo círculo do inferno, entoado no cântico cinco da “Divina Comédia”, o “Vale dos Ventos”, onde padecem os luxuriosos, em meio aos turbilhões de vento que arrastam a alma. Sem dúvida, uma troca carregada de culpa.

         Passados mais de quatrocentos anos, as pessoas ainda cometem as mais variadas transgressões (mesmo no sentido desta época) em nome da manutenção de relações afetivas. Hoje, quando até mesmo as religiões se amparam na ciência para encontrar o limite entre fé e razão, todos os dias, muitas pessoas se lançam às péssimas práticas para encontrar os caminhos para o coração da pessoa amada. Elas buscam demover a vontade da pessoa objeto do desejo com ameaças, chantagem financeira, manipulação dos filhos, dentre outras formas de violência. Muitos dos atos relacionados a essa “nova feitiçaria” são criminalizados, embora não saiam dos noticiários cotidianos.

            É triste constatar que, se compararmos os incidentes registrados pela Primeira Visitação do Santo Ofício com as notícias que chegam até nós, envolvendo relações afetivas, teremos a impressão de que a entidade cultural descrita como diabo e os locais descritos como círculos do inferno parecem pouco assustadores. Em meio a tantos atos deliberados que pretendem extorquir amor, recitar frases da consagração não parece algo tão aterrorizante. Certamente, um viajante do tempo do Século XVI, ao ser confrontado com os avanços científicos e as notícias de nossa ignorância, tenderia a dizer que o diabo ainda tem grandes vitórias na Terra de Santa Cruz.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. As vitórias do diabo na Terra de Santa Cruz. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 13 julho 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591