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Inutilidades necessárias

A arte e nada mais que a arte – disse Nietzsche –

temos a arte para não morrer da verdade.

Albert Camus em “O mito de Sísifo”.

         Fui convidado no início de setembro pela diretora das Coleções Especiais da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, minha querida amiga Eliani Gladyr, para fazer a abertura do ciclo de palestras Cinema Comentado no belíssimo teatro “José Aparecido de Oliveira”. A dimensão da responsabilidade do charmoso convite veio quando me enterei que iria abrir para ninguém menos que a professora Maria de Lourdes Gouveia, especialista de longa data no assunto. O filme daquela noite era Ligações Perigosas, do britânico Stephen Freas, e que havia tirado o fôlego de minha geração como um tratado sobre o perverso egocentrismo pós-moderno que nos impede de amar de verdade. Isso no longínquo ano de 1988 de minha adolescência.

         Não sou especialista em cinema, mas me recordo com frequência do despojado - e poderoso - lembrete do professor argentino Alfredo Culleton sobre o papel das artes em nossa vida quotidiana, em uma palestra intitulada “ ‘O mercador de Veneza’ e a obrigação dos contratos”, no workshop Vasculhando Shakespeare, na Universidade Unisinos da República Rio-grandense em dezembro de 2017: “sou um apaixonado por essas inutilidades necessárias”.

         Formado em direito e letras, não vejo absolutamente nenhuma diferença entre os dois. Os vejo como expressões culturais de um povo e se algum deles tem alguma perenidade, é obvio que é a literatura (ou as artes) e não o direito.

         “Direito e Política através do Cinema” é uma das disciplinas na qual tenho o privilégio de contribuir como professor convidado junto com o meu mentor e amigo, o Professor Jorge Bercholc, na graduação da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aries (UBA). E nestes encontros uso o cinema nacional e estrangeiro para falar de institutos relevantes do direito, e ao fim e ao cabo, do emaranhado de nossas relações sociais.

         Obras como Antígona, pra tomar um exemplo bem antes do início da era cristã ou as peças de Shakespeare como o “Mercador de Veneza”, que uso bastante em meus cursos de graduação de Processo Civil, mantêm a sua atualidade de maneira perene. O direito da época já há muito pereceu. O positivismo, como bem me confidenciou a professora Maria de Lourdes antes de sua apresentação, “tem dificuldades com o tempo”.

         Mas veja que não é preciso nem sequer ser alfabetizado para saber o que é “O Quinto dos Infernos”, para reconhecer a frase “Até tu Brutus?”, para saber o que é uma sereia, saber que alguém morreu injustamente pendurado numa cruz. Não é preciso ter lido Homero, Dante, Skakespeare ou a Bíblia, nos lembrou o professor Culleton, para saber disso. Não é preciso ter lido Shakespeare para se saber que se pode morrer de amor.

         E por que algo escrito há alguns milênios (Antígona foi escrita por volta de 422 AC) ou uma peça do final do século XVI pode continuar a ser tão relevante e descrever a essência das entranhas humanas de forma tão atual? É simples: porque somos os mesmos bárbaros, com a mesma (des)humanidade, com os mesmos vícios e virtudes.  

         “Poder é a possibilidade de fazer pactos. Quando o poder se manifesta sem pactos, é a violência”, nos lembrou a professora Maria de Lourdes, como quem divido a paixão por Hannah Arendt.

Na trama do filme, nos lembrou a professora após assistirmos a impactante obra juntos, “cada um é o próprio espelho. É o sintoma da morte. Se espelha em si mesmo e não mais na vida”.

         A única coisa que nos separa da barbárie é a educação. É a arte que fomenta exatamente o tipo de debate que nos mostra o quanto somos os mesmos e o quanto temos que estar sempre alerta a isso pra nos protegermos de nós mesmos.

         É na arte onde a nossa humanidade encontra sua perenidade, onde nos encontramos nus e somos os mesmos.

         Note que aqui não cabe o velho debate sobre fato ou ficção. Tudo é ficção. Nossa própria história é uma ficção escolhida pelos vencedores. O debate relevante é entre o que é lembrado e o que é esquecido. O que é fato e o que é esquecimento. E aqui o cinema também nos mantém vivos e com memória.

         Talvez com um pouco mais de arte possamos nos lembrar que o amor não é poder. É servidão voluntária. E tampouco seria preciso ler “O Banquete”, de Platão, para saber disso.

         Em tempos de violência verbal e punhaladas, deixo para a professora Maria de Lourdes as palavras finais: “Ninguém pratica o mal sem participar de seus malefícios”.

 

Plauto Cardoso – Catedrático por la Solidaridad y la Paz por el Parlamento Internacional de los Estados para Seguridad y Paz de las Naciones Unidas (ONU), Plauto es escritor, docente, investigador y abogado en las áreas de Derecho Constitucional, Derecho Procesal Civil, Derechos Humanos, Derecho & Política y Derecho & Literatura. Es director del Instituto de Derecho de Integración de la Asociación Argentina de Justicia Constitucional (AAJC).