O Direito e o amor, na vida, na morte e depois dela.

 

     “Não há ano novo com velhos hábitos”, já disse Luiz de Camões. O nascimento de um filho nos faz repensar como levamos a vida e nos mostra com é possível organizar um ano novo a cada novo dia de nossas vidas. O ano chinês, o judaico e o católico começam em meses distintos e nem sequer estão remotamente sincronizados temporalmente. Por que não podemos nós mesmo começarmos nosso próprio ano novo a cada dia que quisermos? O ano novo começa com um hábito novo.

     Assumi com orgulho na primeira semana de agosto a cátedra de Biodireito na Faculdade Pitágoras na charmosa capital mineira. Digo isso não por uma questão de promoção pessoal, mas pelo incrível prazer de ensinar um disciplina que tem como fundamento básico o compromisso com o homem com a sua própria humanidade. O direito é um poderosíssimo instrumento do amor ou do ódio, da paz ou da guerra e deve ser usado com extrema responsabilidade. Ensinar a futuros homens e mulheres do direito como usá-lo para o amor e para a paz, com um compromisso inegociável com a dignidade inerente a todos nós é um privilégio que levo muito a sério.

     Este ano concluímos em meu escritório a causa mais bela de minha vida. Como homens do direito, estamos infelizmente acostumados a discórdia, desencontros, ao fim do amor. Quando é que se bate a nossa porta para nos dizer que estão apaixonados pela vida, pelo seu vizinho e simplesmente inspirados pelo amor? Parece que seria como ligar para o seu chefe e dizer que não vai trabalhar naquele dia porque está se sentindo bem demais e gostaria de aproveitar o dia no parque. Deveríamos poder também “call in well”.

      Que bata a nossa porta uma causa fundada na continuidade do amor após a vida quando pouco se vê desse sentimento mesmo em vida nos corredores clínicos das cortes e na práxis jurídica, é algo que te faz refleti como o nascimento de um filho. De alguma maneira o sorriso nos meus lábios quando penso nessa causa ignora os olhos mareados, resultado do sopro quente de alegria que me bate no rosto quando rememoro os passos e detalhes deste incrível caso. Exumei e cremei os restos mortais de uma mãe 60 anos depois do seu falecimento para que sua filha, então uma criança, pudesse levá-la mais de meio século depois de volta a sua pátria adotada e depositar suas cinzas lado a lado das do seu pai. Uma vida ceifada tristemente cedo, uma tragédia familiar sem cura transformada em poesia pura: “quero uni-los na morte já que não puderam ficar juntos tanto tempo em vida. Minha única motivação é o amor de uma filha pela mãe”, me disse no início dessa aventura que mudaria minha relação com a própria cidade brasileira palco do agora poema de amor na minha busca pela geografia e cenário do duro óbito.

      A essa filha que fez a mãe renascer e ao meu filho que fez um pai nascer, meu eterno obrigado.

      Que se use o direito para o amor com mais frequência!