Direito e Literatura

            Em um belo dia com Sol forte e temperatura amena, daqueles que nos convidam a contemplar a paisagem, presenciei um diálogo inusitado. Pela manhã, aguardava uma audiência judicial em uma cidade do interior do estado, quando uma aluna, muito educada, deu-me um largo bom dia. Acontecia muito quando era professor de graduação, e me colocava certo pânico essa situação, porque nem sempre recordava os nomes. Cheguei a ter mais de trezentos alunos em um semestre, somadas todas as disciplinas. E esse conjunto se renovava.

            A menina tinha aproximadamente dezoito anos e vestia-se de modo muito elegante e discreto. Não fosse a pouca idade, certamente um desavisado a confundiria com a magistrada da comarca. Carregava autos de processo com capa azul, daqueles com volumes unidos por um barbante. Nossa conversa logo emudeceu, enveredando-se à temática do tempo. Quando duas pessoas falam do tempo é porque não há mais nada a tratar. De todo modo, demorei a identificar que não se tratava de aluna com dificuldade nas avaliações. Para um professor isso sempre é fator de alívio.

            A menina aguardava orgulhosa e elegante, com seu processo azul agarrado ao peito, quando outro menino, da sua idade, aproximou-se de nós dois. Ele vendia livros infantis. Comprei dois livros para meus sobrinhos, guardei a carteira e comecei a folheá-los.

            Só depois de algum tempo fitando as belas ilustrações dos livros comprados, reparei, com o canto do olho, que minha aluna e o vendedor de livros se conheciam. Ele tentava conversar com ela; ela o repelia com uma digna encarada de magistrada – daquelas usadas quando uma pergunta de advogado ou uma resposta de testemunha flertam com o impossível.

            A civilidade entre os dois foi rompida quando o menino, com roupas que representavam a completa antítese da vestimenta daquela garota, comentou serem seus livros mais divertidos que aquele processo de capa azul, por terem figuras.

            Como se ela estivesse advogando em defesa de todo o Direito, uma entidade maligna pareceu assumir seu corpo. Justificativas para o Direito, para o processo e para a Justiça se acotovelavam para sair de sua boca ao mesmo tempo. Quase sem fôlego, proferiu os últimos argumentos jurídicos que lhe restavam, citando um conhecido livro, “A luta pelo Direito”, de um alemão que ela não lembrava o nome, mas que era muito importante.

            Completamente calmo e demonstrando grande conhecimento sobre seus produtos, o rapaz disse que tinha alguns livros com a mesma temática. Especialmente, indicou um livro infantil chamado “A Justiça”, de Alexia Delrieu e Sophie Menthon. E seguiu desenvolvendo uma ponderada percepção sobre a Justiça.

            Ela, de enfurecida converteu-se em irônica, ressaltando a importância de ensinar essas noções para as crianças. Concordando com a afirmação, o rapaz deixou escapar uma frase: “estava com saudade de você”.

            Enquanto eu me engasgava com uma água mineral e folheava pela terceira vez os livros que havia comprado do garoto, vi a fúria retornar mais uma vez aos olhos da aluna, que aproveitou para dizer que precisava entrar no fórum e conferir algum andamento processual.

            Depois que ela saiu, despedi-me do garoto, o qual seguiu com seu largo sorriso, suas roupas simples e seus livros coloridos. Sem precisar pedir informação, o segurança do fórum disse que o menino valia ouro, e que vendia livros para ajudar a mãe e os irmãos, depois do falecimento do pai. Só então eu percebi, ele também acompanhava aquela cena. E concluiu: “a menina foi namorada do vendedor de livros, mas encerrou o relacionamento depois de ter virado doutora”.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Direito e Literatura. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 6, 08 dezembro 2017. ORCID-IDhttps://orcid.org/0000-0003-4259-4591