Francisco de Orellana e Gaspar de Carvajal: a busca do “El Dorado”

          Inicio a escrita deste texto escutando a trilha sonora do filme “Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida”, executada pela Orquestra Sinfônica Brasileira. Nada me faz recordar tão vivamente minha infância e as primeiras aulas de história, a aventura da descoberta do legado humano.

          Em outro filme do gênero, “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, provavelmente o último com Harrison Ford como Indiana Jones, um personagem histórico surge como elemento de ligação da trama central: Francisco de Orellana (1490 – 1550).

          Bem, perto de Francisco de Orellana, Indiana Jones não passa de um escoteiro. Não apenas ele participou com Francisco Pizarro da conquista do Peru no início do Século XVI, como foi o primeiro comandante europeu a atravessar os Andes e percorrer toda a extensão do que viria ser conhecido posteriormente como Rio Amazonas. Um dos rios mais extensos do mundo.

          Essa expedição foi narrada pelo Frei Gaspar de Carvajal em um livro que tem seu manuscrito original disponibilizado na Internet pela Biblioteca Nacional da Espanha: “Relación del nuevo descubrimiento del famoso río Grande que descubrió por muy gran ventura el capitán Francisco de Orellana”. Essa expedição foi responsável pela difusão da lenda do “El Dorado”, a cidade amazônica feita de ouro.

          Gaspar de Carvajal descreveu que parte do grupo comandado inicialmente por Gonzalo Pizarro (irmão de Francisco Pizarro), consumido pela doença e pela fome, decidiu construir embarcações para seguir o rio e buscar alimentos. Nos muitos dias de travessia, a expedição, que passou a ser chefiada por Francisco de Orellana, foi atacada por muitos diferentes povos indígenas, mas uma tribo chamou a atenção de Carvajal pelo fato de ser constituída por mulheres guerreiras.

          Quando os espanhóis tentaram contato, foram duramente repelidos, sendo o próprio Carvajal ferido por uma flecha. As mulheres, pela descrição, tinham alta estatura, pele branca, cabelos longos amarrados em trança e estavam vestidas apenas com tangas. Um índio foi capturado, contando outros detalhes que são descritos no livro. A língua falada se aproximava do “quéchua” peruano, conhecido por alguns espanhóis.

          A aldeia das guerreiras seria feita de pedra e apenas mulheres podiam viver nelas. Quando precisavam de homens, atacavam tribos vizinhas. Se a criança nascida fosse mulher, era treinada na arte da guerra, se fosse homem, era morta ou entregue a tribo onde havia sido capturado o pai. Gaspar de Carvajal viu nessa constituição social uma grande semelhança com a narrativa de Heródoto (485–420 a.C.), que descrevia uma sociedade formada por mulheres guerreiras: em grego, “Αμαζόνες” (“Amazónes”). A rainha amazona Pentesileia teria participado inclusive da Guerra de Troia, juntamente com sua irmã, Hipólita. Verdade ou mito, a narrativa de Carvajal deu nome ao rio (e até um Estado do Brasil).

          Francisco de Orellana sobreviveu com seu grupo a essa primeira expedição, relatando seu feito na Espanha, mas, quando retornou ao Rio Amazonas, não teve a mesma sorte. Alguns dizem que eles teriam encontrado o “El Dorado” e teria voltado para se apropriar do tesouro, com melhores condições para transportá-lo. Outros dizem que se trata de mais uma triste história sobre a ganância humana.

          O fato é que, mesmo em 2018, os 5.500.000 km² da Floresta Amazônica, dispostos por vários países, seguem sendo capazes de guardar profundos segredos. Mistérios que continuarão lá, aguardando novas gerações que possam se deixar guiar pelo emaranhado que envolve história e arte.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Francisco de Orellana e Gaspar de Carvajal: a busca do “El Dorado”. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 20 abril 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591