Friedrich Nietzsche: convicções e cárceres

             Em um restaurante que vende hambúrgueres e tem um grande “M” como símbolo, uma senhora trocou de lugar para ficar mais distante de nossa mesa. Provavelmente para sair de perto do fluxo do ar-condicionado. Era verão e estávamos minha esposa e eu na Cidade de Buenos Aires, Argentina.

            A idosa era muito magra, mas seu cabelo estava cuidadosamente preso, e suas roupas estavam alinhadas, ainda que fossem simples. Seus sapatos pareciam levemente sujos, mas nada que sugerisse desleixo. A senhora tinha as costas arqueadas e olhava fixamente para frente.

            Fizemos nossa refeição e constatamos que ela não estava comendo nada, ela continuava ali, parada, estática. Tinha uma sacola aos pés e cobria suas pernas com uma manta xadrez.

            Não resisti e me aproximei, pedindo, em espanhol, se ela precisava de algo, se estava tudo bem. Ela não respondeu. Aproximei-me e perguntei novamente. Antes que terminasse a pergunta, entretanto, ela me respondeu com um tímido sorriso, verbalizando que estava tudo bem e não precisava de nada. Um sentimento apressado de solidão alcançou-me, que vazio de significado eu percebi ter a vida.

      Enquanto ainda estávamos sentados no restaurante, um jovem completamente sujo, mas, aparentemente, no ápice de sua saúde física, passou pelas mesas entregando um papel em inglês, pedindo um auxílio financeiro genérico e sem justificativa. Sua abordagem era deselegante, mas não indicava qualquer problema cognitivo ou entorpecimento químico (foi o que pareceu a mim e a minha esposa, profissional com muitos anos de experiência em atenção à saúde mental e à dependência química). Pelo contrário, quando não atendido, proferia frases curtas e precisas de acidez.

            Nesse instante, pela oposição dos extremos, percebi que aquela senhora idosa não estava sozinha. Estava impregnada de vida. Se vive mais intensamente quem explora melhor as potencialidades de sua vontade de viver, mantendo a dignidade conquistada ao longo da construção de suas experiências, aquela senhora estava mais viva do que todos no restaurante. Especialmente, estava mais viva do que o maltrapilho e rude rapaz que pedia ajuda, como se o mundo lhe devesse tudo, mas que não parecia fazer nada para se ajudar.

            As memórias da senhora deviam estar lá, em uma exuberante justificativa de sua existência. O jovem? Torço para que uma vida em um chão sujo e doações quase objeto de extorsão sejam a projeção maior de sua vitalidade. Aos meus olhos, não parecia ser.

            Dignidade humana? Penso que depende em grande parte de nossa vontade de tentar buscá-la. De uma espécie de teimosia para enfrentar cada gota de provação que o mundo nos impõe, mas sem perder nossa essência, sem que nossa vontade se converta em uma mera resposta.

             A segurança daquele rapaz em suas cobranças ao mundo fez-me lembrar de duas citações de Friedrich Nietzsche: "as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras"; "as convicções são cárceres". De minha perspectiva, as convicções daquele rapaz, sejam elas quais fossem, o tinham levado até ali. E o aprisionavam mais intensamente do que a velhice daquela senhora.

            Despedi-me da senhora, enquanto ela continuava a tentar se proteger do gélido ar-condicionado com sua manta xadrez. Dei uma nota de cem pesos ao rapaz enrolada em um papel com a seguinte mensagem que escrevi: “Yo pido disculpas en nombre del mundo. Ahora, usted ya puede disculparse consigo mismo y tener el coraje de construir su dignidad”. À distancia, vi que o rapaz guardou o dinheiro, leu a mensagem e a destruiu ferozmente, disparando em minha direção um sorriso irônico.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Friedrich Nietzsche: convicções e cáreceres. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 8, 15 dezembro 2017. ORCID-IDhttps://orcid.org/0000-0003-4259-4591