Liderem-nos para a construção de pontes!

Vagner Felipe Kühn

            Na primeira vez em que fui para Roma, fiquei impressionado com um detalhe quase imperceptível dos monumentos históricos: a referência ao “pontifex” (“pontífice”) nos monumentos. Com o cristianismo sendo incorporado pelo Império Romano, o líder da Igreja Católica passou a ser conhecido como “pontifex maximus” (“pontífice máximo”), e até mesmo as sucessivas reformas do Coliseu, ocorrida na era cristã, trazem a referência à autoridade responsável por sua realização. No Brasil, tenho a impressão de que incorporamos a tradição de exibir os feitos, mas não o real significado dessa importante função de liderança.

            Pontífice era, inicialmente, a designação daquele que construía pontes. Literalmente, aquele que, em meio a tribos que povoavam a península itálica, conseguiu unir forças dispersas para construir as mais notáveis obras da época. Construir pontes representava a possibilidade de aproximação, de entendimento, de comércio, além de indicar um grande poder de liderança.

            Não é sem razão que a obra “Commentarii de Bello Gallico” ("Comentários sobre a Guerra Gálica"), escrita pelo próprio Júlio César, por volta de 50 antes de Cristo, dá atenção especial à ponte que seu exército construiu sobre o Rio Reno. Teria construído uma ponte de 400 metros, com 9 metros de largura, sob um rio que chegava à profundidade de 9 metros. Tudo em apenas 10 dias e utilizando apenas os recursos disponíveis nas proximidades do rio. Segundo o relato, os povos germânicos, em maioria de 10 para 1, fugiram diante de tamanha demonstração de técnica e disciplina.

            Tive a oportunidade de conhecer alguns pontífices em minha vida, pessoas com uma grande capacidade de aproximar pessoas, muitas vezes de ramos diferentes, para dar início a projetos inéditos, ambiciosos e impressionantes. Como em qualquer ponte, esse exercício de aproximação começa no projeto. O pontífice é, antes de qualquer coisa, um observador que transita por diversos meios. É nesse processo de proximidade que, antes de qualquer fundação, ele mede a distância entre as margens, a profundidade do rio e a largura necessária para dar conta dessa empreitada.

            Nos mais variados círculos da política brasileira, os pontífices são raros. A desonestidade impede qualquer passo fora da linha de interesse econômico. Mas é a mediocridade que realmente impede que alguns políticos se transformem em verdadeiros pontífices. Essas criaturas usam correntes, não pontes. Querem relações de obediência canina, não buscam estabelecer uma relação entre iguais. Não pretendem unir mundos diversos, mas comandar, com pulso de ferro, as pessoas para que caiam no abismo de seu submundo.

            Não tenho dúvida de que temos pessoas capazes de realizar grandes feitos, melhorando a vida de todos. Somos capazes de construir o que quisermos. Mas não iremos a local algum seguindo pessoas medíocres, que passam a maior parte do tempo assustadas em manter sua condição de poder. A mediocridade, entretanto, não é condição definitiva. Mesmo o maior dos covardes, um belo dia, acorda pela manhã e resolve enfrentar seus medos. Faço votos que esse raio de esperança brilhe sob as cabeças que deveriam estar iluminadas.

            Roma tem muitas placas fazendo alusão a obras, nos mais variados cantos, mas poucos foram os pontífices que transformaram seu próprio nome em título imperial. Sim, depois de Caio Júlio César, por volta de 69 depois de Cristo, o próprio termo “César” passou a ser um título imperial. Dizia César: “os covardes morrem muito antes de sua verdadeira morte.” Chega de trincheiras! Chega de abismos! Chega de medo! Chega de mediocridade! Liderem-nos para a construção de pontes!

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Liderem-nos para a construção de pontes! Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 15 junho 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591