Lula e a Onça

    Enquanto saía de meu escritório, atravessando o canteiro central da Avenida Independência de minha estimada Palmeira das Missões, recentemente pintado de branco com faixas marrons, assustei-me ao escutar uma música de um passado distante: a canção “Lula Lá”, composta por Hilton Acioli em 1989. Músicas como essa nos fazem lembrar das campanhas eleitorais e do que estávamos fazendo quando a escutamos pela primeira vez.
     A primeira vez que ouvi essa música eu tinha oito anos. Eu e minha família morávamos na Cidade de Marcelino Ramos, aqui no Rio Grande do Sul. Mesmo com oito anos, talvez influenciado pelos desenhos animados, onde a pessoa que sai de casa sempre carrega uma trouxa de pano na ponta de um cabo, eu fugia de minha casa e caminhava uns cinco quilômetros por entre campos e matos para ir até o sítio de minha avó. No dia em que escutei “Lula Lá” pela primeira vez, eu seguia pela estrada quando uma professora de meu colégio passou em um fusca, em baixa velocidade, com essa música sendo tocada. Ela parecia feliz e abanou para mim. Não, na época uma criança de oito anos caminhando sozinha por uma estrada do interior com uma trouxa de pano na ponta de um cabo não gerava muita preocupação. 
    Com a vitória de Collor, o Banco do Brasil, onde meu pai trabalhava, passou por um processo de reestruturação, que incorporou muitas novas tecnologias. Por essa razão, ele precisou pedir transferência para não perder seu cargo de gerência. Fomos parar na Cidade de Corrente, no distante Estado do Piauí. 
    Lá passei alguns dos melhores anos de minha infância. Com menos de dez anos já tinha aprendido a dirigir, atirar e andar a cavalo. Era encarregado por meu pai de fazer o levantamento de custos das compras da fazenda que ele havia comprado. Imagine, um hectare de terra valia o equivalente a poucas cervejas. Acho que meu pai trocou algumas das que bebia por um belo espaço esquecido no meio do nada, quase na fronteira com o Tocantins. 
    A fazenda tinha impressionantes dois mil hectares, ainda que tenha custado o equivalente ao preço de um terreno não muito central de Palmeira das Missões. Estava muito distante das poucas cidades da região, de modo que havia uma vegetação de cerrado quase intocada. 
    Um belo dia, enquanto perseguia algum animal qualquer, acabei me perdendo. Para crianças de minha geração, se perder era algo grave, porque os adultos não vinham nos procurar até que se passasse um bom tempo. Caminhei por três horas no calor da época seca do Piauí, seguindo um curso de água que eu imaginava que me levaria até a sede da fazenda. Em um dado momento, a vegetação ficou mais densa e precisei contorná-la. Foi quando vi os rastros de uma onça pintada, o maior predador de nosso País. 
    Avistei a onça trinta metros distante de mim. Ela estava com os restos da carcaça de um terneiro entre as patas, respirando rapidamente, como alguém que tinha acabado de comer uma feijoada completa. Senti um misto de fascinação, medo e ódio, já que ela havia matado um dos poucos terneiros nascidos naquele ano de estiagem. Sai rápido dali, pois mesmo um menino sabe que não se pode ser amigo da onça.
    Vi outras onças na televisão e em zoológicos depois disso – não foi a mesma coisa. Quando escutei a música “Lula Lá”, lembrei-me de tudo isso, mas me recordei mais da onça. Mesmo que nos cause sentimentos conflitantes e profundos, vale a pena dar uma última olhada em Lula em sua visita à Palmeira das Missões no próximo dia 22/03/2018, antes que, tal como a onça, só seja possível vê-lo em imagens de um passado quase esquecido ou atrás das grades.

 

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Lula e a Onça. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 8, 23 março 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591