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Má educação

         Ouvi dizer certa vez que visitas que se eternizam em sua estada tendem a cheirar mal. É que na realidade nenhuma abuso de confiança e hospitalidade cheira bem.

         Líderes carismáticos parecem ser como tais visitas e em dado momento abusam de seu status de hospede de coração, mente e alma. E a história bárbara de nossa espécie não me deixa mentir.

         Durante décadas de minha vida, as poucas vezes em que adentrei qualquer templo religioso foi por pura curiosidade arquitetônica. Criado por um pai(dre) severo, que havia sido submetido a eternos 18 anos em seminários que o maltrataram de todas as formas por ser pobre, de rigor ainda mais agravado pela rigidez da magistratura, eu sabia bem o que era uma fé imposta goela abaixo.

         O problema era que eu não era bem a alma ideal para imposições. A rebeldia da adolescência veio com força destruidora para a incredulidade de um pai que costumava confessar que fracassara em nossa educação, pois não havia logrado nos inculcar a disciplina do monastério. Obrigado, pai, nunca tive a oportunidade de lhe agradecer por haver falhado neste quesito. Foi seu mais doce erro.

         “Papa muda a doutrina da igreja e pena de morte passa a ser inadmissível: nova regra é incluída no catecismo e proíbe a prática em qualquer circunstância.” E não é que os fantasmas de minha adolescência se despertaram com essa notícia no jornal A Folha de São Paulo nos primeiros dias do tradicionalmente agourento mês de agosto. Pensava, por pura ignorância e o desinteresse confesso pela liturgia e violenta doutrina católica, que tais comandos seriam um pouco mais disfarçados.

         Defina pena de morte, meu caro Papa Francisco! E as vítimas de abortos clandestinos, ilustre Pontífice, que o senhor mantêm no calvário? Quantos séculos mais para que se levante essa pena de morte imposta pelo seu credo às suas conterrâneas argentinas que cruzam a fronteira para sucumbir em clínicas clandestinas no Brasil? Ni una menos!

         O que buscamos é educação para evitar que equívocos e ignorâncias históricas se repitam. Como pode uma instituição escolher em 325 d.C., no Concílio Geral de Nicéia, com temperos pagãos, como data para um de seus mais importantes dias sagrados o primeiro domingo depois da primeira lua cheia após o equinócio da primavera no Hemisfério Norte, e séculos depois condenar Galileu Galilei por fazer possível esses mesmos cálculos complexos de maneira científica?

         Certos temas devem ser debatidos bem além de nossas pequenas escolhas pessoais. O fato de que eu nunca escolheria com minha esposa, por exemplo, fazer um aborto em nada muda a realidade de que milhares de mulheres em meu país e nos países vizinhos morrem todos os anos em clínicas clandestinas.

         Essa é a obsessão penal de que fala o constitucionalista argentino Roberto Gargarella. Não se trata problemas sociais com o código penal na mão. Problemas sociais requerem soluções sociais. Ou alguém aqui tem alguma esperança – ou o desconhecimento – de que se introduzirmos prisão perpétua ou pena de morte para o crime de homicídio deixaremos de nos matar de um dia para o outro?

         Apoio a descriminalização da maconha e não sou usuário. Nossas escolhas pessoais nem sempre estarão em sintonia com fundamentais políticas públicas. Peço que me deem algum exemplo no mundo onde a “guerra às drogas” foram exitosas em salvar almas. Só conseguiram gerar um mercado no qual mais se morre no tráfico que no consumo.

         Enviar adolescentes para o sistema carcerário brasileiro por conta de um baseado é de uma perversão sem tamanho. Lugar de criança é na escola. Ou alguém aqui acredita que uma criança que comete um crime de adulto deixa de ser uma criança? A solução não é criar mais penas, mais duras e mais prisões. A solução é parar para pensar por que nossas crianças estão delinquindo como adultos e não tratá-las como adultos. São crianças.

         A simples palavra “catecismo” no subtítulo da reportagem na Folha de São Paulo me deixou nauseabundo. E olha que não fui uma das milhares de vítimas dos conhecidos abusos sexuais de crianças sob a guarda de curas perversos e que por séculos agiram impunimente, retratados com claustrofóbica angústia por Almodóvar em Má Educação.

         A boçalidade do recente debate eclesiástico inclui, por exemplo, pérolas sobre se um hóstia sem glúten impediria o “milagre” da transubstanciação. Pode parecer brincadeira, mas o embate motivou inclusive uma circular assinada pelo cardial Robert Sarah, em julho de 2017, para todos os bispos da igreja, informando que a substituição do glúten seria “abuso grave”. Interessantemente, para afastar qualquer outra dúvida impertinente e manter o milagre perene, a missiva se dá o requinte de alertar que "a eucaristia preparada com organismos geneticamente modificados pode ser considerada válida".

         Fica também permitida, imagino, a diarreia, flatulência e fadiga provocada na grande massa de fieis celíacos. Ainda bem que se serve ao final da celebração.

         Como consolo, a Conferência de Bispos Católicos norte-americana sustentou que os fiéis com intolerância ao glúten podem receber apenas vinho nas missas.

         Em um mundo de infância e velhice roubadas, nossa única esperança, a única crença que nos salvará é aquela de que somos todos dignos, indiferentemente de como viemos ao mundo, em que contexto socioeconômico, cor de pele e independentemente das escolhas que façamos, boas ou más, ao longo de nossa caminhada neste pequeno e angustiado planeta soberbo. O único código de ética que pode nos unir se chama Direitos Humanos.

         No Canadá, Holanda e nos Estados Unidos, igrejas tem sido transformadas em livrarias, boates e cervejarias como é o caso da livraria Polare Maastricht e da boate Paradiso, respectivamente em Maastricht e Amsterdã, Holanda.

         A cervejaria Church Brew Works em Pittsburgh, Estados Unidos, parece se orgulhar por ter acrescentado uma linha a mais ao famoso texto bíblico do gênesis, "e no oitavo dia... o homem criou a cerveja". Com glúten, imagino.

         A vila medieval portuguesa de Óbidos transformou uma igreja do século 12 na Grande Livraria de Santiago, que agora também inclui um bar de vinhos. Isso sem falar na possibilidade de se hospedar no The Literary Man Hotel, junto com seu acervo de 40 mil exemplares.

         Ciência e religião não são antagônicas. Muito pelo contrário, a ciência sem um código de ética moral nada mais é que outro culto ao egocentrismo que nos assola. A ciência teria muito a ganhar da religião, mas não desta que nos vitimiza, distante de sentido de moral e justiça com a qual o homem comum se identifique.

         Não é justamente desse mal que padeceu por séculos o que chamamos de direito? A moral de poucos nada nos serve na ciência, na religião ou no direito.

         Da forma como se destila o ódio através de pretensos cultos, o mundo estaria bem melhor com mais livrarias e menos templos.

Plauto Cardoso – Catedrático por la Solidaridad y la Paz por el Parlamento Internacional de los Estados para Seguridad y Paz de las Naciones Unidas (ONU), Plauto es escritor, docente, investigador y abogado en las áreas de Derecho Constitucional, Derecho Procesal Civil, Derechos Humanos, Derecho & Política y Derecho & Literatura. Es director del Instituto de Derecho de Integración de la Asociación Argentina de Justicia Constitucional (AAJC).