Manto, o deus do azar

            Quase duas décadas se passaram, mas ainda me lembro do dia em que eu conheci a pessoa mais azarada do mundo. Não direi seu nome verdadeiro, o chamarei de “Manto”, uma referência ao deus do azar na mitologia etrusca.

            Era o ano de 1999. Eu tinha tomado um fora de minha primeira namorada, tinha sido praticamente expulso de uma universidade do interior (por um artigo que escrevi sobre a baixa qualidade de ensino) e tinha ido parar em Porto Alegre. Morava sozinho em um pequeno apartamento na Rua José do Patrocínio, no Bairro Cidade Baixa.

            No século passado, acreditem os mais novos, a maioria não tinha celular, acesso à internet ou Netflix, de modo que precisávamos interagir com outros seres humanos para passar o tempo, de uma forma muito fora de moda hoje em dia: a conversa. O uso do orelhão tinha de ser rápido, só para dar sinal de vida para os parentes do interior, porque os cartões eram caros.

            Foi no final de outubro, no dia de meu aniversário, que conheci “Manto”. Eu estava escutando um solo de guitarra, quando o atendente do Bar do João (que ficava na Av. Osvaldo Aranha) falou para um cara que não poderia vender a bebida do vidro que tinha uma cobra dentro. Pensei comigo, está ai um cara pior do que eu.

            Não sei dizer, mas a tragédia dos outros comove e aproxima. Causa um sentimento tão contraditório quanto verdadeiro. De modo simpático, eu disse para ele, - tente o vinho tinto, é tão ruim que neste a cobra nem quis entrar. Depois de uma louca e meio assustadora gargalhada, “Manto” fez sinal de que tinha gostado de meu comentário e começamos a conversar.

            Ele me contou como sua vida tinha sido uma sucessão de eventos desastrosos. Todas as possibilidades eram sempre acompanhadas da pior escolha. Seus pais tinham morrido quando ele era criança e ele havia sido entregue para a mais cruel de suas tias, que, viciada, acabou vendendo todos os bens que seus pais haviam lhe deixado para manter o vício. Depois disso, com a morte prematura dos demais parentes, foi entregue à adoção, indo morar com a pior família já autorizada a adotar uma criança. Apanhava todos os dias e era vítima de abuso sexual. Quando chegou à idade adulta e viu a oportunidade de seguir sua própria vida, como guitarrista, foi assaltado e tomou um tiro, mesmo entregando os bens. A única bala disparada atravessou suas duas mãos, comprometendo completamente seus movimentos e impedindo que qualquer carreira se tornasse possível.

            Mas não foi só isso, “Manto” ainda me contou que tinha sido enganado por um sócio, que havia fugido com o dinheiro da empresa, tinha sido traído pela esposa, no primeiro mês de casamento, e tinha perdido sua única filha, então com dois anos, pelo acometimento de um câncer raro. E isso é só o que eu me lembro de tudo o que ele contou.

            O impressionante é que “Manto” ria de suas tragédias e dizia que aquilo era um superpoder. Enquanto havia dúvida na vida de todas as pessoas, que acordavam pela manhã e saíam de casa, para ele havia a certeza de que só o pior haveria de lhe acontecer. A certeza da tragédia é mais confortável do que a dúvida sobre os bons acontecimentos, teorizava.

            Vi à distância “Manto” na última quarta-feira, em Porto Alegre. Chamou-me pelo nome. Estava com o braço direito engessado. Entretanto, ele nem precisou começar a falar para eu ver que algo tinha mudado, pois desenhos de criança estampavam o seu gesso. Uma imagem incrível de como “Manto”, o mais azarado dos seres humanos, estava ali, firme, permitindo que o colorido tratasse sua dor.

            Sua narrativa de resistência me levou a crer que as lembranças, como as feridas, cicatrizam e, de alguma forma, nos fortalecem e nos tornam mais capazes de escolher a felicidade neste mundo. Uma existência onde todos nós seguimos sendo testados pelo acaso.  

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Manto, o deus do azar. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 06 abril 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591