Mark Twain e o comportamento social: inovadoras tradições e velhas novidades

 

            Samuel Langhorne Clemens viveu entre 1835 e 1910 nos Estados Unidos da América, sendo conhecido pelo pseudônimo Mark Twain. A obra de sua autoria intitulada “Adventures of Huckleberry Finn” (Aventuras de Huckleberry Finn), de 1885, é considerada por muitos o melhor romance norte-americano de todos os tempos.

            A narrativa tem como ponto central a vida de Huck, um menino maltratado pelo pai alcoólatra que se sentia não pertencente à sociedade civilizada de sua época. Forjando sua morte, ele foge e, na fuga, encontra Jim, um escravo que também tentava buscar sua liberdade.

            Nessa relação, a qual se agregam outros personagens, surgem reflexões sobre a responsabilidade no processo de repetição de hábitos culturais e religiosos. No Capítulo XXXVI, a perspectiva torna-se ainda mais evidente, quando se discorre sobre o ato de cavar um túnel com uma faca ou com uma velha picareta:

 

“[...] — O que vale é que num caso como o nosso é desculpável o uso das picaretas. Não fosse isso e eu não permitiria de forma nenhuma que fossem violadas as regras estabelecidas, porque é crime imperdoável fazer as coisas tortas, quando não se é ignorante. Você, por exemplo, poderia livrar Jim com uma picareta sem fazer de conta, por nada entender do assunto — apenas pecaria por ignorância. Já comigo o caso seria outro, conhecedor que sou de todas as normas e regulamentos. Dê-me uma faca. Estranhei que tendo a sua ao lado pedisse outra. Não vacilei, porém, em dar-lhe a minha. Ele arrojou-a a um canto e repetiu o pedido: — Dê-me uma “faca”! De momento não pude atinar com o que Tom desejava. Mas não demorei muito em compreendê-lo. Tateando pelo chão, encontrei uma picareta. Entreguei-lhe e o rapaz, sem dizer palavra, pôs-se a trabalhar. Tom Sawyer foi sempre assim — escravo de princípios e regras [...]”.

 

            Essa narrativa literária com mais de cem anos simboliza o quanto somos apegados a costumes e hábitos, insistindo em modelos nitidamente sem propósito, em situações que beiram ao ridículo. Ações que, contraditoriamente, subvertem lições sobre as quais muita reflexão foi empregada.

            Quantas regras e princípios que nos condicionam profundamente não passam da mais indisfarçável ignorância. Essas supostas novas ideias decorrente da interpretação equivocada de antigas lições são tomadas como uma grande tradição, ainda que não sobrevivam ao mínimo questionamento.

            Dentre as muitas questões trazidas pela referida obra de Mark Twain, emerge o mais característico pragmatismo americano: a avaliação das ideias pela sua coerência e resultado, não por repetição incrédula. Sim, se estivermos com a mente aberta, veremos que algumas questões relegadas ao passado, antigas tradições, hoje podem ser absurdamente inovadoras. Por outro lado, bravatas de novidade, cópias apressadas de um plano acrítico podem não passar de novidades velhas.

            Vivemos em uma época que ignora as verdadeiras tradições e a sabedoria cultivada na experiência, chamando de velho o que é antigo e de chato o que é profundo. Triste, porque arrogância demorará muito mais tempo para fugir de sua prisão, se usar uma nova faca no lugar de uma velha picareta.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Mark Twain e o comportamento social: inovadora tradições e velhas novidades. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 7, 17 novembro 2017. ORCID-IDhttps://orcid.org/0000-0003-4259-4591