Medeia de Sêneca e a tragédia de nosso tempo

Vagner Felipe Kühn

            “Lucius Annaeus Seneca”, um dos mais destacados intelectuais da Roma clássica, construiu sua obra no século I depois de Cristo. Ele não foi apenas um homem de posses, um jurista e um dramaturgo, Sêneca foi preceptor do imperador. Um modelo de ensino que apenas os grandes nobres tinham acesso, onde a conexão entre professor e aluno nem de longe lembra o contato entre professores e alunos que vemos nas universidades de hoje.

            Em sua época, ele explorou o gênero satírico de modo quase impensável para os padrões atuais. Seu texto intitulado “Transformação em abóbora do divino Cláudio” fala como o falecido imperador é recusado pelos deuses, ao ser considerado autoritário em seus atos. Sêneca foi preceptor e, depois, conselheiro de Nero. Aos dezessete anos, havia se tornado imperador. Por essa razão, até hoje se diz que os sete primeiros anos de governo de Nero foram comparados aos de Augusto, uma referência de imperador romano. Mas, como todos sabem, Nero escolheu, na maturidade, um caminho diferente daquele indicado por seu mestre, sendo até hoje a personificação da noção de tirano. Como professor, já vi ex-alunos se desgarrarem assim, penso que deve ter sido muito frustrante.

            Um dos personagens mais representativos de Sêneca foi, indiscutivelmente, Medeia. Ela é considerada uma tragédia romana com um sujeito grego. Um gênero descrito pelos italianos como “fabula cothurnata”. A obra traz como ápice a vingança de Medeia contra seu marido traidor.

            Seu pai, o rei, havia dado a Jasão três tarefas, dentre as quais a de buscar o Velocino de Ouro. Traindo seu pai, Medeia usa seus poderes para ajudar Jasão. Quando, finalmente, Jasão consegue fazer as tarefas, o rei determina sua prisão. E Medeia mata seu irmão para criar uma distração e permitir a fuga de Jasão. Depois de também matar o tio, Medeia foge com Jasão e tem com ele dois filhos.

            No local onde se estabeleceram depois de fugirem, Jasão deixa de Medeia para ficar com a filha do rei. Ao amaldiçoar a sua rival e o rei, é ordenado que ela vá para o exílio. Sua ira volta-se a nova companheira de Jasão e ao rei, mas isso ainda não aplaca sua raiva.

            No ápice de sua fúria, Medeia decide ferir Jasão da forma mais impensável e contundente que existe. Ela, mãe, mata seus próprios filhos para ferir Jasão, lançando seus corpos em pedaços ao pai para que, a cada fragmento de corpo recuperado, a imensa dor se renovasse. 

            O trabalho de Sêneca é a leitura romana da obra do grego Eurípedes, do Século V antes de Cristo. A literatura usa a comparação das semelhanças e das diferenças das duas Medeias para sondar os aspectos duradouros da existência humana.

            Para mim, a tragédia de Medeia está mais viva do que nunca. Sua narrativa seguiu sendo explorada tanto por clássicos, como Ovídio, quanto por contemporâneos, como Chico Buarque de Holanda e Paulo Pontes. Na música “Gota D´Água”, eles cantam: “deixa em paz meu coração / que ele é um pote até aqui de mágoa / que qualquer desatenção / faça não / pode ser a gota d´água”.

            A relação é um pote cheio de um líquido que muda de cor em um piscar de olhos. A traição transforma a cor do amor na cor da mágoa. E alguns seres humanos, se vestidos apenas pelo papel da relação afetiva, ficam cegos para os outros papeis que também representam. Especialmente, não enxergam o papel de pai e o papel de mãe.

            Saiba você, pai ou mãe, que se esquece dos filhos para beber desse líquido turvo chamado mágoa, você está construindo uma tragédia! Pode até parecer sátira, mas, em verdade, não passa de uma tragédia! A alienação parental segue sendo um fenômeno tão denunciado quanto comum. Nela, tal como na obra Medeia, os filhos são despedaçados para que os fragmentos se convertam em uma dor tão profunda quanto contínua. É provável que alguns desses fragmentos jamais sejam recuperados.  

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Medeia de Sêneca e a tragédia de nosso tempo. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 20 julho 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591