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Moby Dick e a Geração Y

Vagner Felipe Kühn

            Os seres humanos são moldados por expectativas. Expectativas que a sociedade tem sobre nós e expectativas que nós temos sobre nós próprios. Sofremos quando o mundo nos cobra por sermos diferentes e somos ensinados a contra-atacar. Mas ninguém nos ensina a superar o desafio dos modelos que nós mesmos nos impomos, consciente ou inconscientemente. Pessoa alguma nos alerta para os riscos dos estímulos que um modelo idealizado pode gerar em nossa vida.  

            Sequer aceitamos que essa projeção virtual pode levar nossa vida a extremos, nos fazendo adoecer. Poderia ser um homem na academia, o qual coloca sua saúde em risco para atingir o que compreende ser o resultado esperado de seu treino, mas também pode ser o empresário que despreza sua família em nome apenas dos resultados financeiros. Poderia ser a menina que provoca vômitos, por não compreender estar magra o suficiente, mas também poderia ser o homem que não consegue terminar um relacionamento abusivo, por não suportar a solidão.

             Algumas pessoas acreditam que o clássico da literatura Moby Dick, de Herman Melville, é sobre uma baleia. Não, na verdade trata do espírito humano, que se impõe buscas impossíveis e autodestrutivas por uma compulsão inexplicável. A confissão é feita por um personagem: “Sou atormentado por uma coceira interminável por coisas distantes. Eu adoro navegar por mares proibidos”.

            Todos nós temos a Moby Dick. Ora a perseguimos, ora ela nos persegue. Quanto mais fingimos que essa baleia enorme não existe, mais ela testa nossas forças e nos atrai para mares ainda mais desconhecidos. O problema é que as situações da vida de um mundo cada vez mais demandante nos fazem acessar pensamentos indesejados em um processo que progressivamente se automatiza. E nossas emoções e comportamentos passam a deixar de ser uma ação livre e consciente para se transformar em um refluxo de sentimentos mal resolvidos.

            Dentro de nós também existem forças de contenção. Por essa razão desenvolvemos fugas, fobias, transtornos, compulsões, depressão, ansiedade. O sistema tenta reagir a um estímulo negativo. Não raro, a sobrecarga da rede não é enfrentada com o desligamento de alguns aparelhos, mas com subterfúgios químicos ilegais e mais carga. Sim, muito do abuso das substâncias psicoativas lícitas e ilícitas tem como base esse fenômeno.

          Minha geração é frequentemente criticada pelas anteriores, especialmente pela geração de seus ascendentes. Faço 37 anos no próximo mês, sou da “Geração Y” para alguns sociólogos.  Nós crescemos com a descoberta de múltiplos padrões e projeções, especialmente os impossíveis. Não nos limitamos a conhecer o mundo por ondas de rádio, cartas ou uma televisão em preto e branco. Nós não apenas recebemos os estímulos de fora, mas interagimos com múltiplas realidades e nos percebemos perdidos nessa pluralidade de opções.

            Todavia, se crescemos com essa abertura, trazemos conosco os valores e determinismos dos nossos pais. Não somos a “Geração Internet”, mas a geração que fez a ponte para esse novo mundo. E não é possível fazer pontes sem que sejam fixas estruturas nos extremos opostos do obstáculo que se quer transpor.

            No final das contas, trazemos o que há de mais moderno, nos lampejos de um mundo novo que vimos ser construído, especialmente em relação ao processo de autoconhecimento da psique humana, e carregamos todos os ditos valores antiquados das gerações passadas, sem nos desfazermos dos que consideramos principais. Somos modernos o suficiente para saber que há uma ajuda, que certos pensamentos nos fazem mal, mas conservadores o suficiente para ignorar sua utilização.

            Em suma: o que já seria um desafio para qualquer geração, parece ser ainda mais difícil para minha geração. Com um pé em cada margem, as projeções idealizadas não apenas se multiplicam, mas se antagonizam. Não uma, mas duas baleias parecem rir de nós.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Moby Dick e a Geração Y. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 21 setembro 2018. Disponível em: https://www.preceptorkuhn.com.br/moby-dick-e-a-geracao-y