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Morte acidental de um anarquista, os escândalos e a consciência

Vagner Felipe Kühn

            Enquanto tentava fazer um download de meu corpo para dentro de um táxi na Cidade de São Paulo, sem muito sucesso, escutei o motorista falar, com sotaque do nordeste, sobre seu desejo de esganar uma fiscal de trânsito que o compelira a pagar sete reais por simplesmente ficar parado na rua, aguardando um passageiro. Dirigia-me para o Teatro Gazeta, na Avenida Paulista, o coração financeiro do Brasil.

            Assisti a peça “Morte acidental de um anarquista”, escrita pelo italiano Dario Fo (1926-2016), vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 1997. A peça, uma mistura de comédia e drama, algo típico do melhor texto italiano, foi escrita se apropriando de muitos dos fatos reais que envolveram a misteriosa morte de Giuseppe "Pino" Pinelli, em 15/12/1969.

            Um atentado a bomba havia ocorrido na Piazza Fontana, em Milão, em 12/12/1969, matando 17 pessoas e ferindo 88. No apogeu do rumoroso caso, Pinelli foi detido para averiguação, juntamente com outros anarquistas, simplesmente por sua conhecida militância política. Antes da meia-noite de 15/12/1969, contudo, ele foi visto cair para morte de uma janela do quarto andar da Delegacia de Polícia de Milão. No momento da queda, três policiais interrogavam Pinelli, incluindo o Comissário Luigi Calabresi.

            O texto impecável do ícone italiano foi traduzido para vários idiomas e encenado em diversos países, mas pelas semelhanças entre Brasil e Itália e pelo talento do elenco (Marcelo Laham, Henrique Stroeter, Riba Carlovich, Marcelo Castro, Maíra Chasseraux e Rodrigo Bella Dona) é inevitável nossa visceral identificação.

            Por volta das 20h do domingo, dia 02/09/2018, enquanto as labaredas iniciavam a destruição do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, incendiando as redes sociais e indignando a sociedade brasileira, eu embarcava na narrativa genial de Dario Fo, recepcionado pelos atores, que tocavam e cantavam na entrada da sala. Não sabia eu, naquele momento, o quanto seria, como cidadão, desmascarado.

            Dentre as variadas lições da peça, permito-me extrair uma, a que mais me consumiu. Tenho certeza de que não desencorajará quem quer que seja a ver a peça ou ler o livro, já que a riqueza da obra não cabe neste singelo espaço de reflexão. Disse Dario Fo, pela boca de seu personagem louco, que os escândalos são o sal de frutas da democracia. Neles encontramos uma oportunidade para tagarelar, esbravejar, culpar. E, de um escândalo, logo saltamos para o próximo, esquecendo o anterior. A democracia precisa dos escândalos, como alguém precisa de um arroto, antes de continuar se empanturrando. A reação ao escândalo é uma válvula de escape, que une todos em indignação, mas que não equivale a efetiva tomada de consciência. Uma dinâmica que contribui mais para a permanência do que para a mudança.

            O incêndio do Museu Nacional, iniciado no momento em que eu estava nessa peça, é um escândalo. E sobre ele todos se uniram para demonstrar indignação, dor e decepção. Mas, quando outro escândalo assumir as manchetes, não terá durado mais tempo que o do alívio de um arroto.

          Abraços simbólicos são dados no Museu em cinzas, enquanto uma autoridade pública chama de viúvas os personagens dessa indignação, culpando a imprensa por não ter produzido atenção social sobre a situação do prédio histórico.

            Por um lado, a reação emotiva de um povo que não tem tempo para reflexão calma e organizada, para as escolhas ponderadas e estratégicas; por outro lado, a fala de um líder que confessa a sistemática de funcionamento da democracia brasileira, parecendo ter certeza de que o tom escandaloso com o qual acusa para se defender permitirá que o povo levante seu acampamento e rume para o próximo escândalo. Tudo no tempo de um arroto.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Morte acidental de um anarquista, os escândalos e a consciência. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 07 setembro 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591