Muros e Medos

 

    É sintomático que a obra humana que se pode observar da lua seja uma muralha. Uma muralha que não evitou conflitos ou invasões. É provável que mais chineses tenham morrido na sua construção do que como vítimas das invasões que realmente aconteceram. ¿Quién gana con los muros erigidos a los que ningún caso hacen nuestras aves?

    Tendo absoluta certeza e fé que nenhum preconceito sobrevive a um café com o outro, convido-os a matearmos juntos mensalmente com esta coluna.

    Quando fui viver no lugar mais exótico que eu, como um rapaz de 18 anos sul-americano podia conceber nos início dos anos 90, em um Kibutz no norte de Israel e a poucos quilômetros da fronteira com o Líbano, deixei para trás uma mãe angustiada, que cria que se despedia de seu filho que estava indo rumo ao fogo cruzado.     

    Na realidade, eu deixava pra trás os 3% da população mundial que hoje é responsável por mais de 10% dos homicídios mundiais. Os assassinatos em meu Brasil natal superaram o número de mortes no Afeganistão, no Iraque e na Síria juntos em 2016. Com apenas 8% da população mundial, minha América Latina é responsável por 38% dos homicídios mundiais.

    Em Israel estava seguro. Cruzar o muro me mostrou que o “outro” era eu. Minhas primeiras namoradas israelitas não tinham sete cabeças. Buscavam a mesma coisa que as garotas que haviam cruzado minha caminhada a milhares de quilômetros dali: ser feliz.

    “Os fantasmas que serviram na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. O medo foi afinal, o mestre que mais me fez desaprender.”

    Poderiam ter sido essas exatas palavras as minhas se não fossem as do Moçambicano Mia Couto a descrever na plenitude o que também vivi.

    Como combater isso? Quem carrega martelo, só vê prego. Quem carrega um giz no bolso como este autor, vê salas de aula. O combate a evasão escolar e o investimento na primeira infância tem relação direta com o combate à violência urbana, afirma a pesquisadora brasileira Ilona Szabó, e eu assino embaixo. Sempre assinei. Há poucas semanas comecei uma palestra na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires com o alerta que o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro fez a governadores nos anos 1980, no Brasil, de que se não se construísse escolas, em 20 anos nos faltaria dinheiro para construir presídios.

    “Há neste mundo mais medo de coisas más de que coisas más propriamente ditas”, insiste Mia Couto. Voltei da minha experiência de 6 meses em Buenos Aires como aluno do programa de doutorado da faculdade de direito da UBA verdadeiramente sul-americano. Nada, nenhum preconceito, insiste o coordenador do programa, o prof. Ricardo Rabinovich, sobrevive a um café com o outro. Ele, que usa o programa para unir alunos de mais de 40 países em prol da paz, criou no seio da família da UBA, um sentimento que eu nunca havia experimentado em minhas andanças globais: eu que me orgulhava de sentir-me cidadão do mundo, pela primeira vez me sentia sul-americano. Fui brasileiro para Buenos Aires em outubro do ano passado. Voltei em maio deste ano orgulhosamente latino americano.

    Meu filho Joaquim, que nascerá em pouco tempo, passou sem perceber a maior parte de sua vida na Argentina. Costumo dizer aos meus irmãos, azul e branco, que vamos tê-lo no Brasil para evitar um problema por causa da Copa do Mundo. Nós nos amamos tanto que até a nossa rivalidade é inventada. Chegou a hora de deixar os pesados fardos herdados da Espanha e de Portugal e tecer juntos nossa própria cumplicidade. Essa rivalidade nunca foi nossa verdade. As guerras foram orquestradas por outros.

     Querido Alberdi, já povoamos. Agora é educar. Vencer é educar.