Narciso de Ovídio e aqueles que não podem amar

Vagner Felipe Kühn

           O Livro III da obra “Metamorfoses” (“Metamorphoseis”) do romano Públio Ovídio Naso (43 a. C. - 18 d. C.) traz o mito grego de Narciso. Ele era filho de Liríope e de Cefiso. Quando nasceu, ambos buscaram junto ao oráculo a previsão do futuro de Narciso. Consultado, ele disse que o jovem viveria até a velhice, “se não se conhecer”.

            Segundo a obra, “muitos moços e muitas moças desejavam-no; mas, tão dura soberba havia em ternas formas, nenhum rapaz, nenhuma moça lhe tocou”. O jovem era imune ao interesse a qualquer pessoa, mesmo instigando profundo desejo em todos.

            Na verdade, não apenas humanos, mas também ninfas se apaixonaram perdidamente por Narciso. Como o desejo irrefreável não foi correspondido, iludidos, todos rogaram ao céu que ele não pudesse jamais encontrar o amor: “Que ele ame e quiçá não possua o amado!”.

            Achando a súplica justa, Ramnúsia (deusa também conhecida como Nêmesis) atendeu-a. E Narciso, parando para descansar perto de uma fonte, deu-se conta de seu reflexo ao tentar aplacar sua sede. Momento em que percebe sua imagem refletida na água: “Sem o saber, deseja a si mesmo e se louva, cortejando, corteja-se; incendeia e arde. Quantos beijos irados deu na falaz fonte! Quantas vezes querendo abraçar a visão, na água os braços mergulhava achando nada! Não sabe o que está vendo; mas ao ver se abrasa, e o que ilude os seus olhos mais o incita ao erro.”.

            Ao amar seu reflexo, sem poder tocar sua imagem, Narciso sente o sofrimento do amor não correspondido: “Ele aspira a mim; pois, quantas vezes beijo sua face líquida, ele, outras tantas, tenta unir-se aos meus lábios. Crês possível o toque: um mínimo nos obsta. [...] Esperança me dás com teu semblante amigo; quando te estendo os braços, teus braços me estendes; quando rio, sorris; sempre vejo em ti lágrimas, se lacrimejo, e ao meu aceno tu assentes”.

            No final, a morte o alcança, não conseguiu desvencilhar-se do amor ao próprio reflexo: “Cansado, a cabeça tombou na verde relva, fechou-lhe a morte os olhos loucos pelo dono”. Mas nenhum corpo foi encontrado: “No lugar acharam uma flor, cróceo broto entre pétalas brancas”.

            Quem andar pela região mediterrânea, não terá dificuldade de avistar flores do gênero “Narcissus”. São flores que florescem na primavera, em solo úmido, perto da água. Plantas que têm, por característica, um caule que inclina a flor para baixo, como se ela própria quisesse encontrar seu reflexo na água.

            Henry Havelock Ellis adotou o termo narcisismo, introduzindo-o definitivamente na psiquiatria no final do Século XIX. Tema, posteriormente, retomado por Sigismund Schlomo Freud. Atualmente, o transtorno de personalidade narcisista (TPN) é um transtorno de personalidade catalogado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5. São descritos os seguintes sintomas, “normalmente sem qualidades nem realizações compatíveis”: “grandiosidade com expetativas de tratamento superior aos outros; fixação por fantasias de poder, sucesso, inteligência, atratividade, etc.; autopercepção de ser único, superior e associado a pessoas e instituições de alto statu; necessidade constante de admiração pelos outros; senso de direito a tratamento especial e a obediência de outros; exploração de outros para obter ganho pessoal; falta de interesse em simpatizar com os sentimentos, desejos ou necessidades dos outros; intensamente invejoso dos outros e a crença de que outros também têm inveja deles; atitude pomposa e arrogante”.

            O mito grego de Narciso representa um traço indistinto da personalidade humana que pode, em muitos casos, evoluir para um transtorno. Em nenhum momento da história, estiveram disponíveis tantos instrumentos de estímulo às personalidades narcisistas. Jamais o culto ao próprio reflexo foi tão poderoso para impedir que as pessoas olhem o que está a sua volta.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Narciso de Ovídio e aqueles que não podem amar. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 24 agosto 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591