O Castelo de Mirabet e a última cruzada

            Em 2017, visitei o último reduto dos cavaleiros templários: o Castelo de Mirabet, na Espanha. Foi lá que, em dezembro de 1308, a resistência foi esmagada por Filipe IV, Rei da França. Essa ordem guerreira instituiu um dos primeiros sistemas bancários da Idade Média. Segundo consta, o endividamento do Rei Filipe IV teria motivado um injusto processo canônico contra seus credores que culminou no fim da ordem.

            Em minha visita, não pude conter meu entusiasmo. Percorri várias vezes as ruinas, seu entorno e até mesmo mergulhei nas gélidas águas do Rio Ebro, que serpenteiam a paisagem até se aproximarem do Castelo. Não preciso dizer que alguns companheiros de viagem acharam estranho eu tirar a roupa para lançar-me ao gelado rio. Algo, entretanto, indigno da mínima atenção dos europeus.

            Não tive sucesso em minha quase infantil busca arqueológica, mas, à noite, enquanto jantávamos no pequeno restaurante que fica no povoado contíguo ao Castelo, percebi que um senhor de avançada idade estava sentado perto de mim, com um exemplar de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Aproximei-me, apontando para o livro e citando uma passagem da obra: “vi è dato il lume della ragione per discernere il bene dal male” (“a luz da razão é dada para discernir o bem do mal”).

            Como se saísse do sono profundo, o senhor olhou-me assustado. Senti-me culpado pela abordagem e me desculpei, imediatamente, em italiano. Disse meu nome e apresentei o grupo, composto por pessoas de vários lugares do mundo. Para minha surpresa, o senhor, que chamarei de Sr. Ferdinando, apresentou-se como físico. Sim, um físico, segurando um livro quase esquecido, que foi escrito entre os anos de 1304 e 1321, no local onde, em 1308, os últimos cavaleiros templários haviam perecido.

            Depois de breves perguntas sobre o que fazíamos na Europa, não me contive e fiz uma provocação sobre a coincidência da obra e da data que marca o local. Surpreso com meu comentário, o Sr. Ferdinando deu uma larga gargalhada que foi finalizada por uma não menos longa tosse. Motivado pelo sorriso sincero, resolvi provocá-lo uma vez mais: “dopo aver visto un fisico che leggeva Dante, ho iniziato a preoccuparmi dell'inferno” (“depois que vi um físico lendo Dante, começo a me preocupar com o inferno”).

         Convertendo seu sorriso em um semblante desconfiado, o Sr. Ferdinando indagou-me se eu gostava de física e se eu queria escutá-lo falar sobre suas pesquisas. Embalado pela segunda caneca da cerveja local, respondi afirmativamente.

            O Sr. Ferdinando falou por uma hora e meia, pausada e didaticamente, sobre suas investigações científicas acerca da correlação entre espaço, tempo, consciência e percepções individuais do bem e do mal. Em síntese, ele tentou demonstrar que a consciência poderia permanecer indefinidamente operante, por se desprender das regras do espaço-tempo, as quais condicionam nosso corpo. Seria como se nos segundos antes da morte, o tempo de nossa consciência permanecesse congelado, permitindo que ela se projetasse para o futuro. Para ele, o inferno ou o céu teriam o exato limite da projeção mental de cada um, com todos os contornos dos medos ou esperanças.

            Depois daquela interessante conversa, ele se despediu de todos. A maioria trocou com ele cartões pessoais. Quando ele saia, fiz minha última pergunta, indagando se havia alguma publicação com a comprovação daquela interessante teoria. Ele me disse que jamais conseguiu publicar um estudo com essa natureza, mas que me avisaria prontamente, em caso de alguma novidade. Jamais recebi qualquer e-mail, mas ontem sonhei com o dia em Mirabet e nossa agradável conversa. Hoje, depois de alguma pesquisa, deparei-me com seu obituário. No epitáfio, lá estava a seguinte frase: “Uno scienziato che ha capito Dante” (“Um cientista que compreendeu Dante”).

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. O Castelo de Mirabet e a última cruzada. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 7, 02 fevereiro 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591