O início da revolução e a ferida da nação

            Quando o tempo passa, o olhar de quem tenta compreender os movimentos sociais normalmente deixa de lado os primeiros acontecimentos em nome das grandes justificativas. Com a Revolução Francesa não foi diferente. Alguns simplesmente contam essa história dizendo que as ideias iluministas deflagraram uma grande reflexão sobre o modelo monárquico absolutista. Mas essa é apenas parte da história.

            Muitos podem dizer que a “Queda da Bastilha”, de 14/07/1789, foi o acontecimento inicial mais importante, vez que até mesmo feriado nacional se tornou na França. Mas nem a bela pintura de Jean-Pierre Houël, “Prise de la Bastille”, consegue afastar o fato de que apenas sete prisioneiros estavam na prisão, quando ela foi atacada.

              O machismo nacionalista não consegue afastar o fato de que o movimento não começou com os burgueses intelectuais, mas com um grupo de mulheres trabalhadoras que marchou até o Palácio de Versalhes, “La marche des femmes” (“A marcha das mulheres”). No dia 05/10/1789, em frente à Praça da Greve, diante da Prefeitura de Paris, tem início um movimento de protesto decorrente da escassez de pão, que culmina na invasão da Câmara Municipal. Diante das indefinições, o grupo, formado predominantemente de mulheres, rumou de Paris para Versalhes. Lá, esse grupo forçou o retorno do rei e da família real para Paris. Foi isso que ganhou as mentes dos franceses e ecoa até hoje.

            Foi esse ato inicial, capitaneado por mães que não conseguiam comprar pão para seus filhos (muitas das quais trabalhavam nos mercados de peixe), o ponto inicial do protesto que, mais tarde, impactaria todo mundo, como uma onda. Um movimento tão complexo e violento que chegou a executar alguns de seus próprios heróis. Caso de Georges Jacques Danton, julgado pelo Tribunal Revolucionário e guilhotinado em 05/04/1794.

            A Revolução Francesa nos ensina muitas lições. Talvez a principal delas seja que, quando as massas sentem o gosto do poder, seus movimentos internos eclodem sem os filtros impostos pela política institucionalizada. As massas não são o povo, mas os grupos que pretendem, com o uso da força ou da ameaça, impor suas convicções, atropelando a razoabilidade. Muitos dos quais pregam a falsa crença de que nada já produzido pela sociedade deve prevalecer e que apenas um grande incêndio pode remover as grandes estruturas de opressão social.

            A Revolução Francesa foi esse grande incêndio e, quando o fogo da desordem se aplacou e milhões de vidas foram levadas, uma nova sociedade muito parecida com a antiga se estabeleceu. Não importa quanta violência um movimento tenha, nem quantos líderes sejam guilhotinados, as pessoas que sobram sempre carregam sua herança social.

            Independentemente de quantos dias os caminhoneiros fiquem parados, nem os tumultos que o movimento gere, o mecanismo de corrupção clientelista continuará a persistir porque o povo brasileiro não passou da adolescência civilizatória. Um adolescente que se revela contra a opressão do mundo, mas que não passa sem a mesada dos pais ou arruma a própria cama. Um adolescente que chora compulsiva e ridiculamente a cada não que recebe, como se suas lágrimas pudessem lavar sua completa infantilidade.

            Todo movimento tem uma fração de pessoas absolutamente coerentes com sua busca, como foi com as corajosas mulheres que marcharam para Versalhes. Buscaram o rei para que ele resolvesse os problemas da falta de pão. Nada pode ser mais justo que isso! Mas também é verdade que, mesmo com justificativas iniciais completamente defensáveis, a humanidade já conheceu diversas tragédias quando movimentos de revolução expuseram a fraqueza do Estado. Mesmo justo, o movimento dos caminhoneiros colocou de joelhos a Nação brasileira, mostrou a fraqueza do que deveria ser a força de segurança. Apareceu a ferida e há uma fila de grupos “políticos”, das mais variadas crenças, para cutucá-la.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. O início da revolução e a ferida da nação. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 01 junho 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591