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O juiz e as pedras

Vagner Felipe Kühn

            Esta é a narrativa sobre um magistrado muito inteligente e observador que chamarei de Caio Graco. Os absurdos relacionados a seguir não deixarão dúvida de que se trata de um mero produto da imaginação.

            Caio Graco foi um aluno mediano na época da universidade. A maioria de seus professores não se lembraria dele, mesmo que fizessem um grande esforço. Ele era muito calado e se sentia desprestigiado pelo mundo. Ele desprezava seus colegas porque não levavam a sério a missão que representava o Direito.   Ainda nos primeiros anos do Curso de Direito, leu a obra Crime e Castigo de Fiódor Dostoiévski. Não lhe chamou atenção a culpa, mas a referência do personagem principal, Ródion Ramanovich Raskolnikov, à teoria de que certas pessoas, pela contribuição que deram à humanidade, não estariam sujeitas a uma moralidade ordinária. Seus grandes feitos autorizariam ultrapassar os padrões de comportamento do homem médio.

            Caio Graco, entretanto, não era um assassino, longe disso. Quando jovem, ele era daqueles alunos tão franzinos e descoordenados que precisava sacar por baixo no vôlei. Algo que foi, talvez, o início de seu rompimento com as relações humanas.

            Mesmo em família, seus laços não eram muito sólidos. Órfão, foi criado pela avó, que não lhe rendia um tratamento muito afetuoso. Ele, por sua vez, aprendeu desde cedo que poderia gritar com a avó sem consequências. Quem passasse pela rua, diante da casa, logo pela manhã, escutaria a seguinte frase, aos berros: - Vó, tem nata no leite! Algo que era seguido de um quase sussurro: - A vó tira.

            O livro predileto de Caio Graco, todavia, era outro. O Alienista, de Machado de Assis. Ele sentia-se como o personagem principal, o Dr. Bacamarte, pois também se sentia um cientista no juízo perfeito em meio a um mundo de loucos ignorantes.

            Sentia-se só, mas estava casado. Sim, Caio Graco havia casado com sua primeira estagiária. Ele costumava dizer que se apaixonou por ela no dia em que viu seu rosto refletido nos olhos dela. – Você tem olhos sinceros, dizia para ela, sempre em tom professoral. Claro, as más línguas diziam que a moça tinha mais a ensinar do que a aprender nas disciplinas da vida.

            Depois dessa longa introdução, chego à narrativa propriamente dita. O dia em que Caio Graco percebeu um conjunto de pedras empilhadas no trajeto onde fazia suas caminhadas diárias. No início, ele não tinha percebido, mas, tempo depois, começou a ver que justamente nos trajetos do parque da cidade por onde andava, estavam empilhadas pedras de rio. Essas pedras meio ovaladas, insculpidas pelo trabalho do tempo, estavam lá, em diferentes tamanhos, uma sobre a outra, perfeitamente equilibradas.

            Com o tempo, as pedras passaram a atormentar Caio Graco. Ele começou a achar que alguém estava tentando intimidá-lo. Percorria mentalmente os processos mais sérios que tinha em seu gabinete para buscar alguma conexão. Ele não queria demonstrar fraqueza, por isso não deixou de fazer suas caminhadas. Foi então que percebeu que as pedras tinham mudado de ordem.

            Inundado por um misto de fúria e medo, Caio Graco tomou distância e chutou a pilha de pedras. Uma dor gigantesca o invadiu, antecedida de um estalo de osso quebrando. A pilha de pedras era fixa e ele havia acabado de quebrar sua perna. Arrastou-se para fora do parque e utilizou seu aparelho pessoal para casos de pânico, pois não tinha dúvidas de que aquela armadilha era um ataque.

            Mais tarde, já com a perna engessada e medicado, Caio Graco dirigiu-se furioso para a delegacia de polícia. Enquanto chegava à pequena delegacia, constituída de apenas uma sala, escutou o Secretário de Cultura da Cidade, um conhecido e respeitável sociólogo, dizer ao delegado: - Sim doutor, alguém entortou um de nossos monumentos de pedras empilhadas. Centenas de anos não resistiram à ignorância de nosso tempo.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Os juízes e as pedras. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 17 agosto 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591