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O Livro dos Mortos, a pesagem do coração e o nascimento da Justiça

Vagner Felipe Kühn

            Não foram os extraterrestres que inventaram o Egito. Essa resposta simplória, insistentemente alardeada por programas televisivos de história não faz justiça ao legado humano dessa importante civilização.

            Os mais de 5.000 anos da Paleta de Narmer nos contam o início dessa aventura. Uma peça de ardósia polida com inscrições em baixo relevo, em ambos os lados, no formato de um escudo, trazem o feito do faraó Narmer, o primeiro líder a unificar o alto e o baixo Egito. O fundador da primeira dinastia. Para se ter uma ideia de como essa civilização é antiga, basta dizer que a conhecida Cleópatra, que reinou entre 51 a.C. e 30 a.C. estava mais distante no tempo do Faraó Narmer do que nós estamos dela.

            O Egito floresceu em virtude do Rio Nilo, o maior rio em extensão do mundo (452 Km maior que o Rio Amazonas). As cheias periódicas inundavam suas margens, levando matéria orgânica e abastecendo represas que eram posteriormente liberadas de modo controlado. A alternância do ciclo de cheias e de secas foi registrado pelos egípcios e servia de base, inclusive, para cobrança de tributos.

             A Ilha de Elefantina, situada em frente da cidade de Assuão, continha um sistema de marcação do nível das cheias, permitindo ao faraó antever o percentual de tributos que cobraria do seu povo. Existem registros indicando que, no tempo de Ramsés II (reinado entre 1279 e 1213 a.C.), esse exemplo de progressividade tributária já era aplicado. Quando o rio enchia menos, uma menor área era inundada, trazendo uma menor colheita. Nessas crises, o percentual de tributos pago era menor. 

        Os faraós, tendo alcançado riquezas enormes, queriam superar as limitações impostas aos mortais. Por essa razão, elaboraram, progressivamente, um complexo sistema de preparativos para a vida após a morte. Esses registros chegaram até nós, pois eram depositados junto às tumbas, e parte desse processo era transcrito em suas paredes.

            Ironicamente, mesmo que muitas riquezas acompanhassem o falecido, o que determinava seu acesso à próxima vida não eram os bens materiais, mas o peso de seu coração. O julgamento era realizado pela deusa Maat, uma jovem mulher que trazia uma pluma na cabeça, utilizada para pesar o coração do falecido.

            No julgamento perante Maat, que ocorria no Salão das Duas Verdades, o coração do falecido era colocado em um lado da balança e uma pena (ou um algodão) era colocado no outro lado. Se o coração pesasse mais, o falecido era considerado indigno, sendo devorado pela deusa Ammit, e o condenado deveria padecer eternamente no Duat. Os indivíduos de coração bom e puro eram enviados para Aaru (o paraíso).

            No julgamento, era necessário fazer quarenta e duas confissões negativas a Maat. Dentre elas destaco as seguintes: eu não assassinei homem ou mulher; eu não proferi mentiras; eu não proferi palavrões; eu não levei alguém ao choro; eu não senti o inútil remorso; eu não senti raiva sem justa causa; eu não desmoralizei verbalmente a mulher de homem algum (recitada duas vezes); eu não dominei alguém pelo terror; eu não transgredi a lei; eu não sou um agitador de conflitos; eu não agi ou julguei com pressa injustificada; eu não levei alguém ao erro, eu não fiz o mal.

       Assim, quando você enxergar uma grande pirâmide ou um enorme monumento em honra aos deuses ou aos faraós egípcios, lembre-se que, segundo o Livro dos Mortos, até mesmo o faraó somente passaria ao paraíso se tivesse um coração leve. Peso esse que era definido pelos atos praticados em relação ao próximo, não pelos bens que acumulava. Dessa narrativa teria nascido o senso moderno de Justiça, difundido pelas três grandes religiões abraâmicas. Segundo a Bíblia, o próprio Deus ordenou que Abrão seguisse para o Egito (Hebreus 11:8-10), mas isso é tema para outra coluna.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. O Livro dos Mortos, a pesagem do coração e o nascimento da Justiça. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 14 setembro 2018. Disponível em: https://www.preceptorkuhn.com.br/o-livro-dos-mortos-a-pesagem-do-cor