O mal do século

 

           O mal do século é a ansiedade, todos dizem. Absorvemos mais do que podemos e o refluxo de experiências faz o pensamento se perder em espirais infinitas. O looping infinito que faz desaparecer a correlação de causa e efeito, por fazerem ambos se misturarem.

         Mas esse mal é de qual século? A pergunta é válida, porque a expressão não é nova. François-René de Chateaubriand deu nome ao demônio, parindo, definitivamente, a expressão mal du siècle (ainda que não a descrevesse diretamente, os traços da ansiedade estão mais do que presentes em sua obra). Ele viveu de 1768 até 1848, Séculos XVIII e XIX. Seria essa ideia, então, uma projeção do século de sua juventude ou a predição do século de sua maturidade e morte? Estaria ele indicando os caminhos do Século XX e antevendo até mesmo o Século XXI?

            O mal du siècle é obra francesa emergida do movimento revolucionário que trouxe maior liberdade ao ser humano (consciência ou ilusão dela), desconstruindo (ainda que isso tenha ocorrido mais teoricamente do que na prática) antigos estigmas sociais. O ser atormentado é um ser que não sabe se relacionar com sua liberdade e procura amarras para dar sentido a sua existência. Por essa razão as massas são, ainda hoje, tão facilmente cativadas, tão tenuemente conduzidas e tão inexplicavelmente burras.

            Não, não foram as redes sociais que deram amplitude aos idiotas, mas a liberdade. E não há um ser livre que não seja idiota, porque lhe falta a confiança nos propósitos dos argutos. O que é um peixe de ações em um oceano de possibilidades? Um retumbante fracasso! Não há como se enquadrar em um mundo com tantas opções de moldura!

            Uma vida de consumo? A maternidade? A paternidade? A carreira? O reconhecimento intelectual? O reconhecimento sexual? As palmas, as cartas, as mensagens, os sussurros? Nada disso faz saciar a sede que sente um naufrago, porque essa água, a água do infinito, é salgada. Um mar sem fim e tão úmido que resseca até a alma.

            O afago do pertencimento, da limitação e a doce entrega ao que não faz qualquer sentido dão razão para existência. Volte para a máquina! Matrix espera, porque sabe que estamos fadados ao fracasso. Não somos seres de liberdade, precisamos hibernar em um ventre de acolhimento, ter colhida nossa energia para uma correlação sistêmica. Sim, o sistema! Talvez o sistema, por canalizar toda nossa entrega de seres livres e sem sentido, possa, finalmente, nos justificar. E tudo isso já estava previsto na Bíblia - Eclesiastes 1:18.

Vagner Felipe Kühn

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. O mal do século. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 6, 01 setembro 2017.