O outro sou eu

“Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”    

                          

Clarice Lispector, “Mineirinho”.

 

 

          Literariamente, 2018 começou bem. Conheci, através de meu amigo argentino Juan Weimberg, a crônica de Clarice Lispector que reputo ser uma das melhores coisas que já li dela. Aliás, uma das melhores que já li. Há algo Borgeano neste conto no qual não falta nem sobra palavra. 

          Há textos que nos marcam para sempre. Há aqueles que nos dão a sensação de que subitamente uma luz se acendeu em nossa mente; há outros que acendem algo em nossa alma e há também aqueles que nos marcam como lembrança de nossos limites humanos e literários. “Mineirinho” é tudo isso e um pouco mais.

           Ruminando há décadas minhas pretensões literárias, quase as descartei de vez quando li “Dois Irmãos” de Milton Hatoum. É o tipo de obra tão tremendamente bem construída que pensei que seria melhor parar de pensar em tentar. Sabia intimamente que nunca chegaria a criar mundos com tamanha perfeição. No livro de Hatoum, os odores e essências dos mercados de minha infância no norte do país me arrebatavam com o simples folhear das páginas.

           Há outros, entretanto, que trazem um pouco mais de esperança a pretensos novos escritores. Há muito que não via Robert Frost servir de inspiração para algo que não fosse clichê como no belo "O Menino, o Assovio e a Encruzilhada", do escritor e amigo Afonso Borges. A mensagem do poema original foi expandida de uma forma deleitosa ainda que sublimemente didática, sem falar das maravilhas das jabuticabas e frutas brasileiras no caminho. Para quem passou a angústia de ter que decidir o que ser aos 16 ou 17 anos, antes de ter lido Antônio Machado e sem que ninguém lhe contasse que tal decisão pode (e deve) ser tomada no caminho, o livro é de um poder libertador imenso! Economiza muita terapia e vodka futuras. É certo que o lerei frequentemente para Joaquim.

           Profundidade e leveza são adjetivos difíceis de se colocar numa mesma linha. Mas é com esses atributos, assim como o livro de Afonso Borges, que a crônica Mineirinho de Clarice descreve em 108 linhas e 1448 palavras tudo que eu gostaria de ter dito, escrito ou lido sobre justiça até hoje.

           Publicado em 1978, demorei 40 anos para conhecer Mineirinho. Espero que não demoremos outros 40 para digerir a única solução pra nossa justiça e que nos ofereceu Clarice de modo tão sucinto: “Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento.”

           A angústia de Clarice era tentar explicar por que lhe interessava mais contar os 13 tiros que mataram um criminoso fuzilado pela polícia que seus crimes. Identificar-se com ele em sua humanidade era distanciar-se da crueldade do excesso da punição. Isso não significava absolvê-lo pelas consequências de seus crimes. O desconforto de Clarice era o mesmo de Luther King: não ser parte do incômodo silêncio dos bons.

           Em 1999, enquanto vivia na tranquila Estocolmo de então, notei bastante surpreso a presença das forças armadas suecas na estrada que me levava à Dinamarca a caminho de um aniversário de um amigo. Viajando com Bjorn, um amigo local que havia conhecido quando estudamos juntos em Sussex, na Inglaterra, perguntei o porquê do aparente exercício militar num ensolarado sábado do normalmente pacífico verão escandinavo. Estava ciente do cinematográfico roubo a um banco no centro de Estocolmo no dia anterior. Meu amigo confidenciou-me, então, com visível desconforto e alarme, que no tal assalto, pela primeira vez desde 1902, um policial sueco morrera em serviço.

           132. Esse foi o número de Policiais Militares mortos até 23 de dezembro do ano passado somente na naturalmente bela e artificialmente sorridente Rio de Janeiro, aquela cidade que deixei pra trás há dois anos com a angústia provocada pela autoimolação emocional necessária para que se possa virar as costas, por puro instinto de sobrevivência, a uma amante com a qual já não se pode mais viver, mas que ainda se ama.

           Clarice, como Vinícius de Moraes, Lígia Fagundes Telles, Monteiro Lobato, Castro Alves e tantos outros, também estudou direito. Fizeram mais pelo direito e a justiça que o contemporâneo e recorrente legocentrismo que divorcia o direito da realidade social, a práxis jurídica da social.

           “Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela”, afirmou Clarice.

           Sem sala de aula, sem poesia, seguiremos nos matando.

  

Plauto Cardoso – Escritor, docente, investigador y abogado, en las áreas de Derecho Constitucional, Derecho Procesal Civil, Derechos Humanos, Derecho & Política y Derecho & Literatura/Cine. Ama Gualeguaychú.

Texto publicado originalmente em espanhol no Jornal El Argentino
Como citar: CARDOSO, Plauto Cavalcante Lemos. El otro soy yo. El Argentino. Gualeguaychú, 27 janeiro 2018. Disponível em: http://www.diarioelargentino.com.ar/noticias/182804/Noticia