O vento do Rio da Prata

Vagner Felipe Kühn

            Enquanto aguardava minha esposa percorrer as lojas de artesanato do centro histórico de Colônia de Sacramento, no Uruguai, sentado em um banco de frente para o Rio da Prata, um senhor de avançada idade se aproximou vagarosamente. Ventava muito, ainda que não estivesse chovendo. Depois de alguns segundos de silêncio, ele se apresentou como Federico e me perguntou, em espanhol, o que eu fazia ali, sentado, sozinho. Disse para ele que aproveitava o frio e o vento para remoer meus medos, culpas e mágoas, enquanto tentava saber mais sobre o voltímetro de bolso antigo que tinha acabado de comprar. Ele respondeu que a culpa pode ser mais poderosa que a maior das prisões e que, se eu tivesse tempo, contaria uma história sobre ela.

            Federico disse que tinha conhecido um homem que perdeu sua esposa, Lilian, quando ela tinha apenas 20 anos. Faleceu enquanto dava a luz a sua filha, Hannah. O homem, na época, era um solicitado técnico de rádios, tinha 30 anos. Sentia-se muito feliz com a esposa, com a qual tinha casado quando ela tinha apenas 17 anos.

            Ele não pode ver a filha, a qual culpou por perder seu grande amor. Fechou-se em casa e passava os dias em meio aos livros e aos rádios que as pessoas levavam para que ele consertasse. Fazendo uma longa pausa, Federico disse que, com o passar dos anos, a dor da perda transformou-se na culpa pelo abandono de Hannah. Mais de uma vez o homem tinha tentado se suicidar, mas sempre aparecia alguém que o salvava. Sentia-se condenado a viver uma longa e interminável vida de sofrimento.

            Nos meses posteriores ao seu aniversário de 50 anos, no ápice de sua tristeza, recebeu uma visita inusitada. Ao abrir a porta, viu uma bela jovem de 20 anos que era idêntica a sua falecida esposa. Sem saber o que fazer, a convidou para entrar, depois que ela proferiu um simples bom dia. Com um belo sorriso no rosto, ela perguntou como ele estava. Como uma rajada de vento, o homem disse que não conseguia conversar com ela, porque muitos eram os sentimentos que o dominavam. Ele queria explicar-se, pedir perdão pelo abandono, pela desistência. A jovem não hesitou. Apontou para uns papeis em branco e uma caneta e disse que voltaria no dia seguinte buscar suas justificativas. Os dois se despediram.

            Depois de muitas horas escrevendo, sem parar, o homem repassou todos os seus momentos de medo, culpa e mágoa. Rabiscava furiosamente o fino papel, quase entortando a ponta da caneta, até que muitas páginas de tinta e lágrimas foram grampeadas juntas.

            No dia do encontro, o homem escutou as batidas na porta, no mesmo horário. Ele estava muito diferente. Tomou banho, fez a barba e arrumou um pouco a bagunça de sua sala. A porta se abriu e, mais uma vez, ele pode perceber o maravilhoso sorriso daquela jovem. Ao olhá-la, sem tanto medo ou surpresa, reparou que ela tinha duas cicatrizes muito semelhantes as de sua falecida esposa. Sem nada falar, tentou entregar seus escritos, que acabaram caindo no chão. Aquela mulher fez apenas uma pergunta: você já se perdoou?

            No dia seguinte, depois de muito relutar, Hannah resolveu, finalmente, visitar o pai, que jamais havia conhecido. Ficou chocada ao encontrar o corpo dele, no chão, sem vida. Tempo depois, quando todos os trâmites funerários foram superados, as anotações com as desculpas finalmente chegaram até ela. Mesmo em meio a anos de dor pela ausência dos pais, ela sentiu uma estranha paz e felicidade. Daquele lugar só levou os escritos, o resto doou para caridade.

            Terminada a bela narrativa, fiquei de pé e disse ao senhor que buscaria minha esposa para conhecê-lo. Antes de eu sair, entretanto, ele fez uma recomendação a qual não dei muita atenção no momento. Disse para eu não usar o velho voltímetro que eu segurava nos aparelhos eletrônicos de hoje porque eu poderia tomar um choque. Quando retornei com minha esposa, o senhor já não estava lá.

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Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. O vento do Rio da Prata. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 08 junho 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591