Paixão e compaixão 

 

                  Vivemos em um momento em que a compaixão está em crise. Essa constatação não é uma novidade, mas talvez mereça algum crédito identificar uma relação onde é possível perceber essa escassez com mais intensidade: as relações que implicam sacrifício sem retorno.

              Absolutamente tudo parece estar imerso em interesse. São atos movidos por um instinto estratégico. Uma falsa bondade. Mesmo esses são raros, de modo que em países com miseráveis são celebrados e elogiados, ainda que se percebam as razões ocultas. 

           Em nosso mundo, parece não haver lugar para a compaixão, ainda que a paixão seja objeto de obsessão. Nosso consumo desenfreado gera um intenso rol de sentimentos que, embora de modo efêmero, nos dão uma overdose de satisfação. 

                Com a compaixão isso não precisa ser diferente, pode haver satisfação. Podemos ter relações intensas de preocupação e solidariedade com pessoas que não estão no nosso raio de interesse. Do mesmo modo, esse sentimento não precisa ser convertido em algo de posse e desejo. 

                  Muitas religiões concebem como dogma esse comportamento, relacionando-o à divindade. Mas ele já floresceu em ambientes absolutamente improváveis. Em sua obra "Meditações", o imperador romano Marco Aurélio (121-181), antes do florescimento do cristianismo, já revela que a moderação, a virtude e a preocupação com o próximo podem estar presentes. E se podia ter um sentimento intenso, verdadeiro e sem promessa de vida eterna.

           Sim, minha conclusão é de que precisamos de utopia e esperança para nos guiar, explorando justificativas racionais para esse comportamento. Não, não é um tratado sobre o exercício da inocência, mas o desejo de que o amor ao próximo possa ser genuíno e verdadeiro. Afinal, a ética não foi concebida, em sua origem grega, como um fetiche, mas como um caminho pragmático para a felicidade.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 

Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Paixão e compaixão. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 8, 31 mar. 2017.