Panem et circenses

“Quem, de três milênios,

Não é capaz de se dar conta

Vive na ignorância, na sombra

À mercê dos dias, do tempo.”

Goethe.

 

     Norte do Estado de Minas Gerais ilhado como consequência de fortes enchentes. Governador encomenda ao diretor da Imprensa Oficial que crie uma seção de literatura no jornal oficial do governo, o único que chega aos moradores ilhados. Não parece crível hoje em dia que um chefe do executivo brasileiro pense que não só de pão vive o homem, mesmo – ou especialmente – em épocas de suplicio. E olha que não estamos tão distantes assim da segunda metade dos anos 1960 quando isso de fato aconteceu e a iniciativa não submergiu com as aguas e acabou por criar o influente Suplemento Literário que embalou uma geração de impressionantes intelectuais mineiros, entre eles, Murilo Rubião. Mas esses eram tempos em que se governava para além da próxima eleição.

     A descoberta do diário do século XIX da professora norte americana Mary Olive Morse na cidade de Mendoza na semana passada nos remete aos tempos dourados da educação Argentina e que colocou o país bem a frente de seus vizinhos por décadas a fio. Época de uma geração de políticos que governava sem se preocupar em refundar a nação a cada nova gestão presidencial.

      A professora Morse, que por mais de duas décadas foi diretora da Escola Normal de Maestras Tomas Godoy Cruz de Mendoza, atesta em seu livro, com impressionante riqueza de detalhes, a disciplina envolvida no projeto de educar professoras locais para alfabetizar crianças da região.

      O projeto de Sarmiento, que junto com a chamada Geração de 1837 cria apaixonadamente em um projeto de longo prazo para educar e construir a jovem nação Argentina, fundou 800 escolas primárias e o número de alunos foi de 30.000 para 110.000 em apenas seis anos.

      Não à toa Buenos Aires ainda hoje sozinha tem mais livrarias que em todo meu Brasil.

      Deste lado do rio, acontece nesta semana na histórica, mas não mais tão bucólica Paraty, Rio de Janeiro, a FLIP – Feira Literária Internacional de Paraty. O que chamou a atenção deste apaixonado por livros infelizmente não foi só a programação da famosa Feira Literária, mas dois fatos de correlação clara e que nossas autoridades insistem em ignorar: o primeiro, o inacreditável fechamento por falta de recursos da biblioteca mantida na periferia de Paraty pela entidade que organiza na cidade a feira literária mais importante do país. O segundo, que Paraty tem a maior taxa de morte por arma de fogo no estado do Rio de Janeiro. E isso não é pouco.

      Que uma professora tenha relatado ver um menino cabisbaixo sentado nos degraus da agora antiga biblioteca e que outros brincassem por perto com armas de fogo de brinquedo é um triste sinal de tempos doentes.

      Tomo o exemplo da biblioteca de Paraty como simbólico e representativo de rincões do resto do país que jamais emplacariam uma nota de roda pé que fosse em um jornal pelo fechamento de uma biblioteca local. Quando elas existem. Ainda assim, o novo Ministro da Cultura brasileiro mal chegou ao cargo e já anunciou 13.000 milhões em investimento público no carnaval Carioca.

      Ministro, e as bibliotecas?

     Antes de qualquer ataque mais apressado dos defensores da maior festa de carnaval do mundo – ou dos irmãos de Gualeguaychú, responsáveis pelo seu mais brilhante equivalente Argentino - lembro que fui por anos produtor cultural. Sei agudamente que cultura, em todas as suas formas, precisa de apoio e não é e nunca será autossuficiente. Mesmo o carnaval carioca e sua capacidade de atrair investimentos privados. Sim, o carnaval é importante e obviamente merece apoio. Mas em um país em crise, priorizar é a palavra do dia. Que se feche uma biblioteca na cidade que abriga a maior feira literária do país, em uma linda cidade agora palco de taxas de violência que superam a de países em guerra, é viver na escuridão.

     Mas, claro, a decadência do carnaval tiraria mais votos ou apoio de qualquer governo na próxima eleição.

Plauto Cavalcante Lemos Cardoso