Passagens

Amor verdadeiro. É normal,
é sério, é prático?
O que ganha o mundo com a união de duas pessoas
que passam a existir num mundo só delas?

 […]

 É mesmo difícil de saber onde as coisas podem parar
se as pessoas começarem a seguir seu exemplo.
Com o que poderão contar a religião e a poesia?
O que será lembrado? O que teremos de renunciar?
Quem suportará viver dentro dos limites?

 […]

 Deixem que as pessoas que nunca encontraram o amor verdadeiro
sigam dizendo que tal coisa não existe.

 

Esta fé há de lhes fazer mais fácil viver e morrer.

 

Waslaya Zimbroswka “Amor Verdadeiro”.

  

    Creio que sempre revivi emocionalmente alguns momentos emblemáticos da história humana com um certo olhar adolescente, rosado. Ou talvez seja só minha alma antiga que gosta de passear no passado.

             Imaginava, por exemplo, como deveria ter sido a euforia da virada do século XIX para o século XX ufanisticamente retratada pelo movimento Futurista.  A Belle Époque francesa sempre me atraiu ao passado. Era estimulante sentar no Café de la Paix, no Café de Flore ou no Le Deux Magot em Paris, já no século XXI, refazendo os passos de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir ou Albert Camus e imaginar ouvir um diálogo dos anos 1940s e 1950s na mesa ao lado. Na descomunal sala de professores da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, em sua impressionante e austera atmosfera meio de museu, meio de sala de palácio real, sentei em todas as cadeiras ao longo dos últimos anos imaginando em qual delas teria sentado Rui Barbosa quando ali lecionou. Queria me sentir seu contemporâneo. Não bastava a honra de também lecionar na mesma universidade mais de um século depois.

           Há algo de nitroglicerina escondido na associação do avanço tecnológico a este incondicional otimismo kantiano de que somos seres predestinados a um progresso linear inevitável.

          Por isso admiro tanto artistas e as artes. Neste mundo em que terceirizamos tudo, da educação de nossos filhos à limpeza de nossas casas, delegamos ao artista o papel de digerir nossas angústias. O artista vive e retrata esse sentimento abstrato, inerente à condição humana, que idealiza desnecessariamente seu futuro, mas terceiriza a angústia – ou tenta – da consequente possibilidade de fracasso, sofrimento e, claro, sobre nossa inevitável morte. Nos resta – aos que ainda sobram alguma centelha de digna coragem – contemplar à distância, nas galerias de arte, o que na realidade deveríamos sentir. Assim, somos apresentados à intimidade de nossos conflitos internos em vernissages, de forma coletiva e com uma taça de champanhe na mão para adormecer algum eventual desconforto.

             O mais incrível é notar que poucos dos presentes a estes momentos históricos de mudança de paradigmas realmente se dão conta do que estão a viver. Testemunhei da popularização do telefone fixo ao seu quase que total desaparecimento de vista. Aquele objeto, ao qual passei grudado longas horas de minha pré-adolescência, sumiu e agora decora minha biblioteca como um souvenir de um passado distante. Meu filho de um ano e quatro meses sabe segurar um celular de brinquedo, mas não se deu conta ainda para que serve aquele estranho objeto na mesa do pai.

             Taxis já não são mais os mesmos. Não nos hospedamos mais sempre em hotéis. Meus alunos me perguntam se a profissão de advogado ainda existirá quando se graduarem.

             Reconfortados na esperança da relevância do papel da TV e seu protagonismo eleitoral, estávamos seguro que os 8 segundos de tempo de TV do agora presidente eleito seria uma barreira ao êxito de seus chovinismos medievais. A eleição só começava mesmo com a propaganda eleitoral televisiva. Foi assim até 2014. Ontem, em termos históricos.

            Anestesiados pela avalanche de informações, não notamos transições, transformações. Vim de um passado remoto no qual bloquear o acesso à informação era a forma de se exercer controle social. Ensino cotidianamente jovens mesmerizados e lobotomizados por pequenas máquinas ligadas às suas mãos. O acesso ao excesso agora é a nova garantia de que não se pensará. A cesura na pós-verdade é a paralisia provocada pelo overdose de sinapses.

             Há pouco no Japão - em outubro passado - o jovem Akihiko Kondo se casou com o holograma de uma cantora de realidade virtual chamada Hatsune Miku. Diz ser fiel a sua nova esposa e que finalmente vive harmonicamente com o sexo oposto. E eu que achava que se apaixonar perdidamente pelo sistema operacional de seu computador como fez o solitário Theodore, personagem brilhantemente interpretado por Joaquin Phoenix na provocante distopia Her, de Spike Jonze, era algo perturbador, mas improvável. A mãe do rapaz, uma conservadora acostumada a tempos outros em que a noiva era de carne e osso, se recusou a comparecer a cerimonia de casamento de seu filho único com a futura nora holográfica, com a qual não poderia se desentender posteriormente.

             Como já nos alertou, em uma série de fotografias que inspiraram o título desta coluna, um dos artistas mais sensíveis que conheço, Gustavo Lacerda,  “o ser humano, que descobriu maravilhado o encanto da rua e se embrenhou numa infinita capacidade de socialização, transita agora por carros. O que era para aproximar, distancia.”

             Não notamos que o telefone que nos unia, agora nos separa. Que as eleições que nos sustentariam, nos corroem.

             Talvez tenha sido sempre assim e temos sempre vivido alheios à realidade que nos cerca. Parecia ser diferente. Ou assim acreditei.

 

Plauto Cardoso – Catedrático por la Solidaridad y la Paz por el Parlamento Internacional de los Estados para Seguridad y Paz de las Naciones Unidas (ONU), Plauto es escritor, docente, investigador y abogado en las áreas de Derecho Constitucional, Derecho Administrativo, Derecho Procesal Civil, Derechos Humanos y Derecho & Política. Es director del Instituto de Derecho de Integración de la Asociación Argentina de Justicia Constitucional (AAJC).