Pensando com os dedos

“Depois de sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas,

o Brasil vai sediar a Idade Média”.    

Chargista Lafa. 

 

     E vejam, irmãos Entrerianos, que os temas debatidos na mídia Brasileira no momento são a sugestão de intervenção militar e a cura gay, pérolas de general incontinente, parte de um perigoso flerte com o desmanche de nosso estado constitucional democrático e de uma justiça enferma que permite liminarmente tratar a homoafetividade como doença, respectivamente. E já tem funcionário ligando para o chefe: “hoje não vou trabalhar porque estou gay”. 

     Intervenção militar? Really? Façamos como me sugeriu dia desses um amigo argentino: vamos unir o Brasil, a Argentina e o Uruguai: aí teríamos Neymar, Messi e Suárez. Sugeri que incluíssemos o irmão Paraguai. Me perguntou quem eu chamaria como representante Guarani? Chilavert? 

     E por falar em nossa integração, tema que motivou o nascimento desse meu convite para matearmos juntos mensalmente nas calçadas de Gualeguaychú, poderia-se argumentar que é nulo o Código Civil Brasileiro de 2002. Ou o seu par argentino de 2015. Assim nos disse em tom de brincadeira o desembargador federal brasileiro Carlos Rebelo, com quem tive o imenso prazer de dividir uma sala de aula no programa de Especialização em Justiça Constitucional da Universidade de Bolonha na Argentina na linda Gualeguaychú. O fundamento para tal afirmação jocosa? Nos comprometemos dentro do marco legislativo do Mercosul que iríamos pelo menos tentar integrar nossas legislações. Descumprimos solenemente nossa promessa. Assim fizeram nossos irmãos argentinos. Ninguém nem remotamente parece ter tido a menor curiosidade em saber se nossas vidas presente e futuras ganhariam com um pouco mais de sincronia legislativa. 

     Mais além da natureza jurídica de nosso pacto de integração, é natural que primeiramente se foque nos negócios, depois em legislações com caráter um pouco mais político e nem sempre comercial. Assim foi o caminho da União Europeia. Assim poderia ser o nosso caminho. 

     A questão é que podemos e devemos trilhar outras sendas. Quer um bom motivo? Nossa água.  Se alguém duvida que a água e não o petróleo será fonte de tensões beligerantes em um futuro próximo, pergunte às empresas de refrigerantes que compram fontes de agua limpa mundo afora. Podemos e devemos legislar sobre nossa vida em comum ainda neste estágio inicial de nossa integração negocial. Seria sábio. 

     Guarani, segundo Silveira Bueno, significa guerrear, combater. Que nome demos à maior reserva subterrânea de agua doce da América do Sul - e uma das maiores do mundo - e que dividimos com nossos irmãos argentinos, uruguaios e paraguaios! O que estamos esperando para que legislemos de maneira comum sobre o assunto? 

     Em 2010, o número de incidentes relacionados à água no Brasil chegou a 87, afetando diretamente 197.210 pessoas, segundo o relatório Conflitos no Campo Brasil. Desses, 47 conflitos (54%) tiveram relação ao uso e preservação da água, 31 (26,5%) tinham a ver com o uso de barragens e açudes e nove (10,3%) à apropriação particular. Em 2016, o número de conflitos praticamente dobrou, chegando à 172 país afora e com a mesmas motivações.

     Com a ratificação pelo Senado brasileiro em 02 de maio deste ano, entra finalmente em vigor o Acordo sobre o Sistema Aquífero Guarani (SAG). Pensado desde 2004, foi assinando em 02 de agosto de 2010 em San Juan, Argentina, como único tratado multilateral que se propõe a regular, especificamente, águas subterrâneas transfronteiriças.

Dia desses enquanto acompanhava meu pai em um exame em uma clínica, depois de observar por algum tempo jovens adolescentes abduzidos pelas telas de seus celulares, me disse do movimento frenético dos jovens polegares: “hoje se pensa com os dedos.” É chegado a hora de voltarmos a pensar com a cabeça.

     Diferentemente do que fizemos com nossos códigos civis, não podemos nos dar ao luxo de tratar essa fonte de vida comum de maneira isolada. Não há fronteiras para essa água. Precisamos ir além dos encontros técnicos de estudo sobre o assunto e de debates sobre a salinidade dessa água aqui ou ali. Precisamos de legislação e gestão efetiva conjunta supranacional para esta dádiva que compartilhamos.

     A melhor amiga do homem é a árvore. E a da árvore, a água. Os Entrerianos sabem disso.

Texto publicado originalmente em espanhol no Jornal El Argentino
Como citar: CARDOSO, Plauto Cavalcante Lemos. Pensando con los dedos. El Argentino. Gualeguaychú, 01 outubro 2017. Disponível em: http://www.diarioelargentino.com.ar/noticias/179449/Pensando-con-los-dedos