Piña Colada song: a pista para compreensão da vontade humana de fugir

 

             Vejo muita gente com uma vida declaradamente feliz que, de um momento para o outro, sem razão aparente, resolve mudar tudo: divórcio, troca de profissão, troca de cidade e até troca de país. Sem dúvida, parece digno de investigação um fenômeno tão intenso.

                  Cito como exemplo a conversava que tive com um amigo que é juiz federal. Ele me dizia como pensava em sair do Brasil para fazer outra coisa, mesmo recebendo menos. Difícil de acreditar, mas ele cogitou deixar uma das carreiras mais concorridas do país para se dedicar à fabricação de sorvete artesanal na Europa. “O que aprendi a fazer com meu avô ninguém faz igual”, dizia ele com um olhar entusiasmado.

            Inesperadamente, na última quinta-feira, talvez eu tenha encontrado uma pista desse fenômeno na música “Escape” de Rupert Holmes. Mesmo sendo canção antiga (de 1979), aparece na trilha sonora do filme “Guardiões da Galáxia II” (de 2017). Justifico que não dispenso nenhum gênero de filme, desde que meu professor do Doutorado, Dr. Ricardo Rabinovich (argentino e amigo de longa data do Papa Francisco) proferiu o seguinte ensinamento: os filmes de ficção podem não tratar sempre dos seres humanos ou de nosso planeta, mas os roteiros são escritos por seres humanos deste mundo e, não raramente, o distanciamento da trama é a licença que o autor precisa para enfrentar temas difíceis.

                 Voltemos à música e à investigação. Em uma tradução livre, diz que um homem, sentindo-se cansado da rotina com sua mulher, lê um anúncio no jornal que diz o seguinte: “Se você gosta de Piña Colada / E de tomar banho de chuva / Se não curte yoga / E tem apenas meio cérebro / Se gosta de fazer amor à meia-noite / Nas dunas do Cabo / Então eu sou o amor que você procura / Escreva para mim e fuja”. Rapidamente, ele responde com outro anúncio e marca um encontro “em um bar chamado O'Malley”.

                 No bar, reconhece o sorriso da sua garota, e ela diz, surpresa, “oh, é você”. Eles riem, e o homem diz: "Eu nunca soube / Que você gosta de Piña Colada / E de tomar banho de chuva / E sentir o oceano / E o gosto de Champagne / Que gostasse de fazer amor à meia-noite / Nas dunas do Cabo / Você é a garota que procuro / Venha comigo e fuja”.

              Qual é a pista que encontrei na música “Escape” de Rupert Holmes (também conhecida como “Piña Colada song”)? Não importa com quem estejamos, o que fazemos para ganhar a vida, a cidade ou o país onde moramos, se não compreendemos o significado da voz que nos manda fugir. Precisamos, como seres humanos, de novos estímulos, de novos sabores, de novas amizades e de novos amores, mas isso não significa que essa novidade precisa ser produzida fora de nossa vida atual. No fim das contas, se pararmos para reparar, o que consideramos estático pode já ter se transformado em algo melhor e nós nem notamos.

                  Claro, podemos mudar. Este não é um tratado à conformidade. Mas se a mudança vem travestida de fuga, então precisamos ter certeza de não levarmos em nossa escapada o que queremos deixar para trás. Do contrário, só estamos fugindo de nós mesmos.

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Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Piña Colada Song: a pista para a compreensão da vontade humana de fugir. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 7, 05 maio 2017.