Povo que não tem virtude, acaba por ser escravo

            No Hino do Estado do Rio Grande do Sul está a resposta para todos os males sociais.. Refiro-me, especialmente, ao seguinte fragmento: “Mas não basta pra ser livre / Ser forte, aguerrido e bravo / Povo que não tem virtude / Acaba por ser escravo”. Lido de outra forma, o texto significa que a vida virtuosa é o único caminho para liberdade, pois a pior prisão é aquela que construímos pelas nossas próprias escolhas.

            Aristóteles (que viveu entre 384 a.C. e 322 a.C.) tratou da Ética em seu livro “Ética a Nicômaco” e firmou os alicerces da noção moderna de agir virtuoso. Já em sua época, esse pensador grego identificava que a maioria dos homens confundia o bem com os prazeres da vida: “A julgar pela vida que os homens levam em geral, a maioria deles [...] parecem (não sem um certo fundamento) identificar o bem ou a felicidade com o prazer, e por isso amam a vida dos gozos”.  

            Embora Aristóteles seja muito citado por doutrinadores da fé católica, como São Tomás de Aquino, a estruturação de seu pensamento é muito mais antiga que o cristianismo e até pode-se dizer que é em grande medida refratária à noção de crença em dogmas. Aristóteles compreendia que todos nós temos limitações em nossos sentidos (audição, olfato, tato, visão e gustação) para compreender o mundo onde estamos, mas que o conjunto das impressões dos sentidos poderia ser combinado na busca pela verdade. Para ele «nihil est intellectu quod prius non fuerit in sensu» (“nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos”). Em outras palavras, o conhecimento somente pode ser formulado a partir do que acessamos por nossos sentidos.

            Segundo ele, era a lógica o instrumento de organização das impressões imperfeitas dos sentidos e de compreensão do mundo. Por essa razão, ao se falar em virtude, temos como pressuposto um comportamento definido por lógica, onde o ser humano conduz a sua liberdade para a felicidade, por meio da ponderação, o “meio-termo”. Referia Aristóteles: “por meio-termo [...] entendo aquilo que é equidistante de ambos os extremos, e que é um só e o mesmo para todos os homens; e por meio-termo relativamente a nós, o que não é nem demasiado nem demasiadamente pouco — e este não é um só e o mesmo para todos”. Para mensurar a virtude, devemos, pois, evitar o excesso e a falta.

            Aristóteles considerava que “o excesso e a falta são característicos do vício, e a mediania da virtude”, de modo que a virtude é essa ponderação. Alguns consideraram que seu modelo de pensamento, que acreditava na capacidade humana de se aproximar da verdade, foi uma resposta a outro grande filósofo da época, Protágoras (490 a.C. - 415 a.C.). Um sofista, conhecido pelo seu pensamento relativista e pela célebre frase: “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”.

            Sócrates (muito tempo antes) teve um embate filosófico com Protágoras, onde ambos debateram a natureza da própria virtude e se ela pode ser ensinada. Esse diálogo foi imortalizado pela obra “Protágoras”, de Platão. Para Aristóteles, que foi aluno de Platão, a virtude pode ser ensinada.

            Passados mais de 2300 anos, os seres humanos conquistaram muito, mas não são raros os casos daqueles que buscam na conquista material a felicidade e, mesmo em meio aos prazeres extremos, encontram o vazio e a frustração. A virtude é o meio-termo decorrente de um processo de ponderação lógica, que afasta o vício do excesso e o vício da falta. É um caminho solitário, com tentativa e erro. E nenhuma pessoa pode se dizer virtuosa, apenas os seus atos podem carregar esse adjetivo. A virtude é ato de liberdade, daquele que se liberta dos seus impulsos, sem os suprimir. É atitude de vigília. A virtude é uma pergunta, não uma resposta.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Povo que não tem virtude, acaba por ser escravo. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 11 maio 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591