Quetzalcóatl e Tezcatlipoca: entre a serpente emplumada e o jaguar

 

            O Canal History da televisão por assinatura tem um programa dedicado à hipótese de que muito da cultura dos povos antigos, incluindo os povos originários das Américas, seria decorrente da influência de alienígenas. Segundo o historiador Filipe Figueiredo, ainda que se trate de uma hipótese que mereça ser sempre investigada, ignora dados científicos concretos. Ela representa a exploração de um comportamento comum entre nós em relação ao passado, ora o esnobando como algo atrasado, ora o idealizando como algo impossível. No caso dos povos originários no México, o tratamento dado não é diferente. A espetacularização dos grandes monumentos arqueológicos ignora a complexa cultura pré-existente ao contato com os europeus, deixando de prover o devido reconhecimento.

              Mesmo que muito tenha sido destruído, nove compêndios de informações (designados pelos europeus como códigos) salvaram-se da destruição e assimilação cultural espanhola, segundo a Doutora Ronco e a Mestre Martorelli: “o Borbónico, a Matrícula de Tributos, a Tira de la Peregrinación, e os seis que formam o Grupo Borgia; Borgia, Cospi, Fjervary-Mayer, Laud, Pintura 20 da Coleção Goupil-Aubin e o Vaticano B3773 da cultura Puebla-Taxcala”.

            Esses registros indicam que, muito antes do período do renascimento europeu, com o surgimento das universidades, os povos originários já dispunham de centros de educação: o “Telpochlli”, voltado a uma educação mais prática, e o “Calmécac”, espécie de centro de educação superior. Nesses sistemas de ensino eram admitidas mulheres não apenas como alunas, mas também como educadoras. Para esses povos, seus governantes deveriam ter passado por esse sólido processo de formação para que tomassem as melhores decisões, sob uma sólida formação moral. O nobre não se destacava somente pelos seus privilégios ou por sua ascendência familiar, mas por resistir a esse longo processo de provação física e mental.

            Os estudantes do “Calmécac” eram considerados guerreiros e guerreiras do espírito porque seu processo de aprendizagem voltava-se ao enfrentamento das debilidades da alma e às tentações da matéria. A arte e a sabedoria eram poeticamente concebidas como as armas dessa jornada. Na dualidade entre homens e mulheres, os guerreiros do espírito tinham a consciência de que precisavam incorporar elementos do sexo oposto no processo de autodescoberta. Esse fenômeno está até hoje nas representações masculina e feminina, que sempre carregam a referência ao outro sexo.

            A representação da morte por caveiras se encontra em todos os lados no México. A vida e a morte simbolizam uma dualidade que se opõe e se complementa. Para se ter consciência da vida, seria necessário ter consciência da morte. Pelo fato do crânio ser o último elemento do corpo humano a desintegrar-se, ele é tratado como um símbolo da vida eterna do espírito e como a valorização do legado deixado por aqueles que já se foram.

            Tezcatlipoca é o deus do céu noturno, da lua e das estrelas, senhor do fogo e da morte, vigilante da consciência, representado pelo jaguar. Quetzalcóatl é a divindade da vida e da abundância, sendo representada pela serpente emplumada. Dizem que também era representado por um homem de barba longa e de olhos azuis. Por essa razão, os povos originários acreditaram que o conquistador Hernán Cortez era Quetzalcóatl, algo que explica a facilidade do domínio espanhol.

            O México e os países da América Central produziram uma cultura rica e valorosa, que nos faz refletir sobre o florescimento da sociedade por caminhos diferentes. E é surpreendente que depois de tantos séculos, ainda estejamos repetindo essa batalha florida, lutando contra o apego para transcender nossas limitações, enfrentando nosso medo da morte e tentando deixar um legado. Ainda estamos tentando nos encontrar em meio às dualidades.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Quetzalcóatl e Tezcatlipoca: entre a serpente emplumada e o jaguar. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 8, 02 março 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591