São Tomás de Aquino e a razão como exercício da fé

Vagner Felipe Kühn

           Enquanto caminhava pelo “Kloster Eberbach”, a abadia onde foi filmado “O Nome da Rosa”, baseado no livro de Umberto Eco, na Alemanha, tentei imaginar o tamanho da coragem e da fé dos religiosos que descobriram a filosofia de Aristóteles a partir da segunda metade do Século XII. Tal como o filme sugere, algumas leituras nessa época poderiam levar alguém à morte.

              A obra de Aristóteles não chegou à Europa medieval por um caminho fácil. Deve-se muito da preservação da filosofia grega ao Califado Abássida. Eles eram árabes descendentes de Abas ibne Abdal Mutalibe (566–662), um dos tios mais jovens de Maomé. Para os árabes, Aristóteles era considerado “al‑Hakim”, que, segundo o Dr. Eduardo C. B. Bittar, significa aquele “a cuja autoridade se recorre e de cuja doutrina se extraem os elementos para o aprimoramento dos saberes e das artes humanas”.

            Não é sem razão que na Espanha floresceu o pensamento filosófico aristotélico, pois era território, em grande parte, dominado pelos árabes. Chamavam seus domínios na península ibérica de “al‑Andalus”. Os árabes permitiam uma considerável tolerância religiosa, de modo que os muçulmanos, os cristãos e os judeus desenvolviam expressivo intercâmbio de ideias. Para Rosalie Helena de Souza Pereira, “Toledo foi o ponto de encontro das culturas árabe e latina”, pois no “século XII, os estudiosos cristãos buscaram nas bibliotecas da Península Ibérica os tesouros da ciência árabe que nelas estavam cuidadosamente guardados”.

            Por essa razão, deve-se à “Escola de Toledo”, constituída sobre o patrimônio intelectual árabe, a difusão da filosofia aristotélica no Século XII. Algo que causou, nas palavras de Carlos Lopes de Mattos, um efeito “extremamente perturbador”. Em 1211, o concílio de Paris estabeleceu a proibição do ensino de física de Aristóteles e, em 1215, ao estabelecer os estatutos da Universidade de Paris, o Papa proibiu a leitura das obras “Metafísica” e “Filosofia Natural”.

            Quando São Tomás de Aquino nasceu, em 1225, portanto, ninguém poderia imaginar que aquele jovem iria redesenhar a doutrina católica para sempre, abrindo espaço para que a razão e a ciência resgatassem a Europa de sua era mais nebulosa. Ele não se considerava um filósofo, mas um homem de fé. Justamente por essa razão é que seus ensinamentos foram acolhidos como o resultado de um trabalho teológico, não uma provocação filosófica.

         Dentre seus vários ensinamentos, destaca-se a noção das duas verdades: a da fé e a da razão. São Tomás de Aquino compreendia que a razão humana poderia ser movida por Deus, principalmente nos temas da fé, mas os seres humanos também tinham uma capacidade natural para acessar o conhecimento, sem que fosse necessária uma intervenção divina especial. Ele sustentava que o ser humano tinha a capacidade de conhecer as coisas inteligíveis pela razão, não pela fé.

            Seu esquema intelectual tem aplicação também na Ética. Poder-se-ia chegar ao agir virtuoso pela ponderação racional. Isso fica claro em sua obra “Suma contra os Gentios”: “Existem a respeito de Deus verdades que ultrapassam totalmente as capacidades da razão humana. Uma delas é, por exemplo, que Deus é trino e uno. Ao contrário, existem verdades que podem ser atingidas pela razão: por exemplo, que Deus existe [...]”.

            São Tomás de Aquino faleceu em 1274. Seu legado moldou a filosofia moderna e o próprio Direito. Mas a ignorância está mais forte do que nunca e a palavra Jesus é entoada para justificar dogmas de fé irracionais. São Tomás de Aquino, como outros corajosos estudiosos medievais, apoiava-se na fé para se guiar pela razão. Hoje, passados mais de 700 anos, muitos transformaram a fé em plataforma de pregação para ignorância.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. São Tomás de Aquino e a razão como exercício da fé. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 3, 05 outubro 2018. Disponível em: https://www.preceptorkuhn.com.br/sao-tomas-de-aquino-e-a-razao-como-