Siddhartha Gautama e Aristóteles: o equilíbrio e a virtude na construção da Ética

            Segundo narrativas antigas, Siddhartha Gautama teria sido um príncipe que viveu durante boa parte de sua vida afastado dos dramas do mundo, protegido em seus castelos. Ele nasceu por volta de 563 a.C., em um reino que se estendia por uma região entre os atuais Nepal e Índia.

            Por volta dos trinta anos de idade, as inquietações levaram-no para longe da proteção da vida de nobre. No mundo real, foi arrebatado pelo sofrimento, pela fragilidade da existência e pela morte. Queria respostas às questões que o faziam sofrer e adotou práticas intensivas de privação e meditação.

            Depois de quase morrer, entretanto, ficou claro para Siddhartha Gautama que deveria existir um caminho do meio, algo entre os extremos que tinha conhecido. As conclusões de Siddhartha Gautama, atingidas pelo exercício dessa reflexão equilibrada, produziram muitos ensinamentos. As principais lições foram resumidas nas “quatro nobres verdades”.

            A primeira foi a realidade do sofrimento, a vida é sofrimento. A segunda foi a realidade da origem do sofrimento, o apego, o desejo e a cobiça geram sofrimento. A terceira nobre verdade é a realidade da cessação do sofrimento, alcançada pela libertação dos desejos.

            A quarta nobre verdade representa um caminho para enfrentar o sofrimento que não conduza à desistência da própria vida. Trata-se do “Nobre Caminho Óctuplo”: o conjunto de oito práticas. O caminho do meio que caracteriza a proposta inovadora de Siddhartha Gautama: a moderação, a harmonia e a fuga dos extremos (aqui resumidas): compreensão ideal – tentar entender as coisas como elas são; pensamento ideal – não causar mal nem por pensamento; fala ideal – ter atenção à fala, não a desperdiçando inutilmente, falando a verdade de modo conciliador e harmonioso; ação ideal – abster-se de destruir a vida; meio de vida ideal – não esbanjar e não ser mesquinho; esforço ideal – abandonar estados que sejam prejudiciais; atenção ideal – buscar a completa consciência das ações para evitar atos irresponsáveis; concentração ideal – estabilidade e foco mental.

            Essa lição de conduta equilibrada inspirou, dentre outros, o conhecido pensador grego Aristóteles (algo pouco admitido pelo Ocidente). Nascido em 384 a.C., ele foi professor de Alexandre, o Grande. Um soberano que incorporou ensinamentos e hábitos culturais de outros povos, depois de enfrentá-los pela força, compartilhando-os nas diversas cidades (alexandrias) fundadas em seus domínios.

            Na obra “Ética a Nicômaco”, o sistema ético proposto por Aristóteles não representa um projeto normativo, mas um instrumento racional para a busca de uma vida plena e, nesse sentido, feliz. Para ele, o agir virtuoso deve ser construído pelo equilíbrio e pela busca consciente do justo meio.

            O pensamento de Siddhartha Gautama encontrou um caminho inusitado para influenciar a cultura ocidental. Infiltrou-se pela cultura grega, passando pelos romanos, até agregar-se à santidade da narrativa teológica cristã. Mas, quando fé e razão buscaram estabelecer espaços de convívio, a ciência passou a condenar aquilo que não trazia evidências materiais. Ironicamente, muitas vertentes cristãs seguiram o caminho da afirmação pelos resultados concretos, uma teologia da prosperidade. Deus e demônio mitificaram a autocompreensão, obscurecendo explicações evidentes.

            O resultado foi a construção de muitos bens, a inequívoca melhora material da vida, mas à custa de um profundo vazio existencial. Nunca o desejo e o apego foram tão estimulados, a dicotomia entre bem e mal tão fomentada e o sofrimento foi sentido tão definitiva e intensamente. Jamais existiram instrumentos ao apego e ao desejo tão aptos a testar até mesmo aqueles que são devotos da busca desse equilíbrio. E temos um sistema normativo do mesmo tamanho da banalização do que hoje chamamos de Ética.

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Siddhartha Gautama e Aristóteles: o equilíbrio e a virtude na construção da Ética. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 7, 12 janeiro 2017. ORCID-IDhttps://orcid.org/0000-0003-4259-4591