Sobre irmãos e irmãs, carrascos e vítimas

             A ucraniana Svetlana Aleksiévitch recebeu o prestigiado Prêmio Nobel de Literatura de 2015 pela obra “O fim do homem soviético”. Trata-se de um livro único em muitos aspectos, pois revela uma autoria que conduz sua escrita por meio das narrativas e impressões de entrevistados. Pessoas reais que não apenas indicam sua perspectiva dos fatos históricos, como também fazem transparecer seus exageros, contradições e mágoas. O foco é a tumultuada transição ocorrida no período de 1991 até 2001: as repercussões da Glasnost.

             Uma das narrativas traz a história de duas vizinhas. Elas viviam em um dos muitos apartamentos do Estado soviético. As famílias dividiam esses apartamentos, com banheiros e cozinhas usados coletivamente. Uma das vizinhas tinha uma filha e, depois de denunciada à polícia política, foi presa. Pediu, antes de ser levada, que sua vizinha e amiga cuidasse de sua filha. Ela adotou a criança, salvando-a dos orfanatos públicos, e passou a ser chamada por ela de mãe. Depois de quinze anos, a vizinha presa pelo regime retornou para casa e encontrou sua filha muito bem criada. Beijou as mãos da sua amiga.

             Com a queda do regime, os arquivos foram tornados públicos. E qual foi a surpresa da vizinha presa? Sua própria amiga, provavelmente motivada pela possibilidade de ficar com um quarto maior no apartamento coletivo, havia feito a denúncia.

             Algum sistema político realmente persiste sem apoiar-se em escolhas do cidadão comum?

             “Sobre irmãos e irmãs, carrascos e vítimas ...”, esse é o título de um dos capítulos, mas bem poderia sintetizar um aspecto pouco frequentado da realidade social: nossa vida é influenciada em grande medida pelas decisões de pessoas que estão fisicamente próximas de nós. A família, os amigos, o trabalho e a comunidade. Mesmo que se use um discurso produzido em tempo e lugar distantes, é no contexto das relações próximas que se constroem as melhores e as piores relações humanas.

             Se pudesse arriscar uma síntese para o período soviético de 1991 até 2001, eu diria que foi um tempo em que aquele povo perdeu parte considerável de sua inocência: em um primeiro momento, deu-se conta de sua inocência em relação ao regime socialista soviético; em uma segunda etapa, perdeu sua inocência em relação ao sistema capitalista ocidental.

             E aqui chego, finalmente, ao paralelo que gostaria de traçar com a situação política, econômica, jurídica e social do Brasil do final do ano de 2017. Este País ainda não perdeu sua inocência e segue acreditando em mitos, sejam eles de uma economia de mercado perfeita e não influenciada por nenhuma ação do Estado, seja ele o de uma sociedade compulsoriamente igualitária, com um Estado onipotente, onipresente e onisciente, ou, ainda, uma improvável mistura de ambos, uma espécie paradoxal de liberalismo totalitário.

             Temos observado um discurso de desilusão no Brasil, com uma profunda descrença em relação à classe política, mas essa desilusão é acompanhada de uma inocência que busca soluções por meio de um ato de fé, não por um juízo crítico. O grande salvador é esperado para solucionar os problemas do Brasil, e, assim, seguimos produzindo variações de discursos de terceiros que repelem, perseguem, afastam e condenam a relação comunitária. Precisamos urgentemente admitir a nossa participação no processo de construção desta República clientelista e corrupta, afastando o recital de teses simplistas das soluções de problemas pontuais. Questões que deveriam ser abraçadas por discussões francas e guiadas pela razoabilidade. Precisamos de “Glasnost” (“гла́сность”), isto é, “transparência”!

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Sobre irmãos e irmãs, carrascos e vítimas. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 7, 29 dezembro 2017. ORCID-IDhttps://orcid.org/0000-0003-4259-4591