Trajano e a matemática do amor

             Depois de incontáveis horas de voo do Hemisfério Norte para o Hemisfério Sul, sorvendo cada gota de água disponibilizada pelos comissários de bordo para aplacar a sede da última refeição feita em solo mexicano, cheguei ao aeroporto, no Brasil. Feita uma rápida parada para um suco de laranja e dois pães de queijo, iniciava o processo de conexão, quando avistei um colega da época em que eu cursava Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

             Trajano (nome fictício que usarei em homenagem a uma piada da época das aulas da disciplina de Direito Romano) é uma pessoa divertidíssima e que sempre pensa mais nos outros do que nele próprio. De boa família, bom caráter, bem-apessoado, inteligente e sem dificuldade de se comunicar, não preciso dizer que fazia um absurdo sucesso com as mulheres. Na época da faculdade, cheguei a presenciar uma briga entre duas meninas por causa dele, sem que ele sequer tivesse tido qualquer relação próxima com elas.

            Meu amigo Trajano, entretanto, sempre foi muito sério e fiel. Quando, por algum motivo, se desencantava com uma menina, marcava um jantar na casa dele, cozinhava, abria um vinho, e tinha uma conversa franca para encerrar o relacionamento. Sei disso porque, na época, ele comentava quando isso acontecia, com muita tristeza no olhar. Algo que, para mim, sempre significou uma demonstração concreta de caráter.

            Pois bem, estávamos no aeroporto conversando e uma bela mulher loira de olhos verdes se aproximou. Trajano a apresentou como sua esposa, Pompeia (nome fictício que atribuirei). Ambos aguardávamos o mesmo voo para Porto Alegre, mas algum problema tinha ocorrido com a bagagem deles. Por essa razão, Pompeia pediu licença para voltar ao terminal da companhia aérea, enquanto gargalhávamos com os episódios inusitados dos almoços no restaurante universitário da UFRGS, quando pagar mais R$0,30 para tomar um suco de laranja artificial, “Tanjal, o inigualável”, era sinônimo de status.

            Impulsionados por essa conversa divertida, quase não me dei conta de que outra mulher, agora uma morena de olhos azuis, aproximou-se, apresentou-se como Plotina (nome também fictício) e deu um longo beijo na boca de Trajano, que seguiu distraído, falando de nossas peripécias universitárias. Tentei compreender, em silêncio, o que ocorria, sem querer parecer intrometido.

            Trajano falava, ao lado da morena Plotina, e eu sequer escutava o que dizia, porque percebi que ao longe se deslocava com um olhar indignado a mulher que ele havia me apresentado como sua esposa, a loira Pompeia. Enquanto ela caminhava em nossa direção, eu tentava referir a Trajano que Pompeia estava vindo, que algo parecia muito errado, porque ela estava com uma cara de dar medo. Trajano, influenciado pelas narrativas saudosistas, ignorava meus avisos, enquanto eu já vislumbrava a confusão que eu ia presenciar em poucos segundos.

            Para minha surpresa, Pompeia deu um beijo na boca de Plotina, agarrou-lhe a cintura, e começou a reclamar de uma mala que só viria no próximo dia. Confesso que demorei a compreender que não se tratava de um casal, mas de uma família formada por três pessoas. Logo eu, que me achava de mente tão aberta, não considerei essa hipótese até eles comentarem, em tom de brincadeira, que estavam admirados por eu não ter falado nada a respeito.

            Sim, meu olhar foi baseado em conceitos prévios, e minha atitude de alerta foi fundada em uma solidariedade machista, mas compartilho este breve relato para me redimir. No final das contas, não importa quantas pessoas integram uma família, mas se todos estão felizes com suas escolhas. Na matemática do amor, dividir pode multiplicar.     

Texto publicado originalmente no Jornal Tribuna da Produção. 
Como citar: KÜHN, Vagner Felipe. Trajano e a matemática do amor. Tribuna da Produção, Palmeira das Missões, p. 8, 09 março 2018. ORCID-ID: https://orcid.org/0000-0003-4259-4591