Um dia sem linha
Plauto Cardoso

          Dia 23 de maio. Não havia dia melhor no universo de tradições deste nosso planeta para receber o convite para fazer parte da diretoria da Associação dos Amigos da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, a SABE. Foi pura coincidência, mas eu pelo menos nunca me esquecerei que foi no dia que celebramos mundialmente o objeto mais poderoso, que mais amo e cobiço no planeta: o livro.

          Em uma conversa, já há algum tempo, na capital mineira com o senhor Van Damme - o inquieto e magnético fundador da livraria que leva o peso do seu nome, das diversas línguas fluentemente faladas e de sua enorme paixão pelos livros -, entre vários assuntos, me confidenciou que era um homem de muita sorte. Passava os dias entre livros e quando chegava em casa, fazia o mesmo. Nunca, prosseguiu, sentia-se trabalhando. E concluiu que um dia sem leitura, era um dia perdido.

          Relatei ao meu pai, em cuja biblioteca de certa forma me criei, o diálogo com o senhor Van Damme, esperando com certa curiosidade sua reação. Ele, com seu habitual poder de síntese, não tardou a vaticinar: “um dia sem linha!”

           “Tive que vir ao banheiro pra chorar escondido no meu primeiro dia de aula. Depois que o professor entrou e começou a falar, eu não acreditava que estava ali”, me revelou um aluno que eu acabara de conhecer semana passada na aplicação de provas de outras disciplinas. Havia me pedido pouco antes que lhe permitisse ir ao banheiro. Contou-me que estava em tratamento oncológico e que sentia muita dor quando não ia regularmente ao banheiro. Claro, abri uma exceção e fomos conversando enquanto caminhávamos rumo ao toalete masculino. Era um senhor que seguramente contava alguns anos a mais que eu, de uma simplicidade tocante e mãos calejadas que revelavam algum labor manual para financiar seus estudos. Disse-me, ainda rumo ao banheiro, num tom de quase confidência, mas com uma sutil firmeza de propósito que não passava desapercebido, que sonhara em estudar. Havia lutado para concluir o segundo grau e conseguira entrar para a Faculdade de Direito. Já adiantado em seu curso, ainda se lembrava da visita ao banheiro para chorar às escondidas de alegria.

          Talvez tivesse caminhado os mesmos passos pelo mesmo corredor. Talvez tivesse sido aquele o banheiro. Talvez por isso tenha revisitado o tal momento. O que ele não sabia, e lhe contei arrepiado e um pouco engasgado, foi o que me passou no meu primeiro dia na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires (UBA). Subi com alguma pressa e transbordando de orgulho os largos e altos degraus da imponente entrada – sem conta-los, é claro, já ciente da maldição de tal aritmética que acabava por aprisionar o curioso contador por anos a fio na instituição a impedir-lhe a graduação. Levava vestido uma elegante camisa branca de alguns milhões de fios egípcios e corte italiano que minha esposa e incentivadora havia me presenteado para o tão ansiado momento e, quando alcancei o nível da entrada e me deparei com o impressionante Salão dos Passos Perdidos, não havia banheiro perto. Chorei copiosamente no ombro de minha companheira de caminhada, sempre presente nos meus momentos mais sonhados.

          Há algo profundamente libertador no processo de educação. Não sei exatamente o que é, mas toca fundo na alma. O aluno que acompanhei ao banheiro masculino, já no caminho de volta a sala de exames, segredou-me que creditava à emoção e vontade de concluir seu curso a sua vitória contra o câncer. Eu certamente credito à UBA a vitória contra vários outros tipos também potentes de canceres corrosivos: meus preconceitos. Em todas as etapas de minha vida, todas as instituições que me ensinaram me fizeram um ser humano melhor. Poder ensinar em todas elas, é um outro sonho realizado que vivo com a plena consciência da carga de responsabilidade.

          Há quem creia que a roda foi a grande invenção da humanidade. Eu cá com os meus botões acredito que foram as linhas a tal grande invenção.

          Um dia sem linha, um dia perdido.

Plauto Cardoso – Escritor, docente, investigador y abogado en las áreas de Derecho Constitucional, Derecho Procesal Civil, Derechos Humanos, Derecho & Política y Derecho & Literatura/Cine.