Um mundo mal humorado

 

Parem todos os relógios, desliguem o telefone

Impeçam o cão de latir com um osso suculento

Silenciem os pianos e com tambor abafado

Tragam o caixão, deixem as carpideiras vir

 

As estrelas já não são necessárias

joguem fora cada uma

Embrulhem a lua e desmantelem o sol

Esvaziem o oceano e varram a floresta

Pois nada mais agora pode ter algum valor

W.H. Auden, Funeral Blues.

 

 

          “Marcella, ele já viu um negro antes?”, perguntou de forma jocosa um amigo de minha esposa que veio visitá-la para conhecer nosso Joaquim no alto dos seus sete meses. O comentário foi impulsionado pelo olhar fixo do pequeno infante, reação normal nesta idade ao primeiro contato com um desconhecido branco, preto, amarelo, vermelho, de qualquer sexo, gênero, credo ou ausência pós-moderna de algumas dessas marcas. A reação seguinte de Joaquim é sempre um largo sorriso.

          O comentário não me passou desapercebido. A consciência do amigo de sua própria epiderme, um personagem que caminha com ele e que é notado pelo segurança do supermercado quando ele sai de casa de maneira um pouco mais casual num domingo nublado e sonolento só para comprar um queijo, é insondável para outros seres humanos que caminham pelo planeta sem uma pele que fala, grita e é forçada a engajar-se em dialéticas indesejadas sem avisos prévios.

Relembro o leitor que dois em cada três latino-americanos irão eleger um presidente em 2018. Isso mesmo, UM e não UMA presidente. Isso porque com exceção de Margarita Zavala, no México, e Marta Lucía Ramírez, na Colômbia, nenhuma outra candidata parece que se apresentará como alternativa a um mal humorado e envelhecido patriarcado.

          “Você votaria novamente em uma mulher”? Sylvia Colombo expressa seu espanto com a pergunta já corriqueira em uma recente coluna no jornal Folha de São Paulo. Apesar dos desastrosos governos liderados por homens, essa jamais seria uma indagação feita: “você teria coragem de votar em um homem depois do governo de Maduro, Chaves, Lula, Temer, Macri, Ortega, Trump, Putin, etc?”. Entretanto, o questionamento se tornou corriqueiro diante dos tropeços dos recentes governos liderados por mulheres presidentes na América Latina, e em particular no Brasil e na Argentina.

          Como o negro, a mulher também leva consigo estigmas “invisíveis” e o que buscamos, nas palavras de Michel Focault, “ [...] consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível”.

          “Você votaria em uma mulher negra?”, certamente será a pergunta seguinte neste contexto tão “ilustrado”.

          Talvez por isso o mundo ande tão mal humorado. Aponto para a espantosa reduzida presença de mulheres no cenário político e jurídico como parte da razão do azedume que percebo atualmente no mundo. Imagine qual seria o fim, hoje em dia, da divertida banda Village People e suas fantasias conscientemente estereotipadas? “Índio não é fantasia”. Mecânico pode? Enfermeira está proibido ou é sexista? Imagine se se sugerisse no Carnaval em Gualeguaychú, em meio ao intolerante e geralmente ignorante e fútil ativismo cibernético, que se fantasiar de índio é apropriação cultural, que índio não é fantasia. Sim, esse foi o debate que permeou o carnaval brasileiro, impulsionado por uma fantasia de uma atriz carioca.

          Faltou sala de aula para quem demanda que uma festa popular com uma tradição que data de milênios, fundada na subversão jocosa de papeis, siga os parâmetros de um museu etnográfico. Faltou, também, humor. Ou homem fantasiar-se de mulher no carnaval agora é sexista? Como ficamos terrivelmente desajeitados, seria isso um escárnio, uma humilhação proposital que impomos a mulher durante os dias de folia?

          O nível de superficialidade é tão alarmante que não se ultrapassa mais o nível da epiderme. Como se salva uma geração que se convenceu que o limite de um texto é 140 caracteres?

Ah, Darcy Ribeiro! Não te fizeram caso quando vaticinastes nos anos 1980 que nos faltariam recursos para construir presídios se não construíssemos escolas. Tristemente te conto que Brasil é hoje um lugar muito perigoso para quem defende que dignidade é algo ontológico, intrínseco ao simples fato de sermos humanos. Somos o quarto país mais perigoso do mundo segundo levantamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Três de cada quatro assassinatos de militantes da área de Direitos Humanos no mundo estão concentrados entre o Brasil e a Colômbia. Em 2016, houve um assassinato a cada cinco dias de acordo com o Comitê Brasileiro de Direitos Humanos.

          Que aprendamos a dialogar com o outro de uma maneira mais feminina e fazer perguntas mais leves, justas, menos sexistas, racistas, xenófobas e misóginas. Espero poder ensinar ao meu pequeno Joaquim a continuar sorrindo segundos depois do primeiro encontro, seja qual for a pele ou forma de seu interlocutor. Espero que ainda nos sobrem traços de dignidade e humanidade que ele possa reconhecer.

Feliz 8 de março. Feliz 8 de todos os meses. Feliz todos os meses. Todos os anos e todos os dias. Todo dia é dia de mulher.  

          Obrigado Marcella, Maria, Marina, Lola, Marisa, Mônica, Rose, Solange, Vera, Verônica, Azul, Ângela, Ju, Carol, Eleonora, Grazi, Babi, Bete, Carmelita, Claudia, Flor etc., pelo bom humor, fortaleza e leveza. 

          Obrigado, Marielle.

 

Plauto Cardoso – Escritor, docente, investigador y abogado en las áreas de Derecho Constitucional, Derecho Procesal Civil, Derechos Humanos, Derecho & Política y Derecho & Literatura/Cine. Ama Gualeguaychú.

Texto publicado originalmente em espanhol no Jornal El Argentino
Como citar: CARDOSO, Plauto Cavalcante Lemos. Un mundo malhumorado. El Argentino. Gualeguaychú, 25 março 2018. Disponível em: https://www.diarioelargentino.com.ar/noticias/184332/Noticia