Uma árvore, um filho, um livro

“Cultura, que antes era uma consciência que nos impedia de dar as costas a realidade,

hoje é sinônimo de uma cultura de distração.”

 

Mario Vargas Llosa em

La civilización del espectáculo.

 

     Tradições. De alguma maneira elas nascem e começamos a segui-las. Não sei exatamente quando comecei a crer que seriam objetivos de todo homem escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore. De todos os modos, me parecem iniciativas interessantemente semelhantes e que, guardadas suas proporções, implicam em comprometimentos similares.

     Sempre tive muito medo de que tipo de filhos deixaríamos pra o mundo e acompanho o crescimento do meu com atenção. A vida, afinal de contas, não se conta em páginas de calendários, mas em encontros. A cada novo dia, reencontro meu filho, minha esposa, meus amigos, meus alunos, meus livros, minha família. São todos minha família.

     Não será diferente com a pequena muda de cerejeira que recebi de presente no Fórum Nacional de Diretores de Escolas Públicas este mês na capital mineira e no qual tive a honra de participar para compartilhar minha visão sobre a importância do ensino de Direitos Humanos no processo de formação de crianças e jovens. Acompanharei com carinho o crescimento do pequeno pedaço do Japão que orgulhosamente plantei. Foi minha primeira árvore e não imaginava a felicidade que me daria tê-la plantado.

     Seres estranhos que somos, cremos em coisas que não existem na natureza. Somos a única espécie que caminha neste planeta a acreditar em espetaculares, complexas e necessárias ficções intersubjetivas. Profundamente ciente de que só giz e quadros-negros nos separam da barbárie, agudamente consciente de que não basta somente oferecer educação de qualidade, sei que é importante que se promovam debates que forjem seres que cresçam acreditando na mais fundamental de todas essas ficções que precisamos crer: que dignidade deve ser associada a todo ser humano pelo simples fato de ser humano, independentemente do estado de sua evolução e do que tenha feito em sua caminhada.

     E isso implica de maneira prática usar um único verbo que parecemos ter uma desconcertante dificuldade em conjugar, um substantivo simples, leve e elusivo: respeitar, respeito. 

     A muda de cerejeira em sete anos florescerá junto com a segunda infância de meu Joaquim. Em julho, em Belo Horizonte, Buenos Aires e em Gualeguaychú nasce Cartas à Gualeguaychú, uma coletânea das doze primeiras colunas semeadas no meu matear mensal nas calçadas da República Entrerriana, nutrida pelos pudins de Marina, o calor do lar de Nahuel e Verônica, pelo amor nos olhos de Ricardo, na inquietude do doce e curioso olhar de Juani, de Maristela e Hanah. Pelo furação Pampa Dumón e o carinho de Vivi, Paz e Marisa. Uma obra orgulhosamente coletiva, nascida enquanto deslizávamos em águas internacionais em um passeio de barco e fruto de um solene ignorar de fronteiras, do sonho em ver nossos filhos brincando juntos e nossas árvores como verdadeiramente nossas.  

      A ideia do senhor Miura é irmanar Brasil e Japão através desta árvore icônica. Tem dedicado a sua vida semear Brasil afora a árvore símbolo de seu país. Seu sonho é vê-las florescer em cada escola pública no Brasil. Se no curso da próxima geração conseguirmos o mesmo com Direitos Humanos, com o simples conceito de que o outro merece respeito, merece sempre ser resgatado para o nível mínimo de dignidade que cremos aceitável para nós mesmos, teremos dado sentido a nossa existência conjunta.

      Nosso maior objetivo educacional deve ser ajudar a superar uma clara falha na formação filosófica e sociológica de nossas nações nas quais dignidade é perigosamente relativizada, apesar dos claros exemplos históricos que deveriam nos alertar para as terríveis consequências desse tipo de visão.

     Anos atrás li uma dessas acéfalas “pesquisas” que não se sabe como angariam patrocínio e que concluía, depois de alegada profunda análise de “dados”, que casais que tinham cachorros eram mais estáveis! Nunca deve ter ocorrido aos “cientistas” desses tipo de dejeto que polui o horizonte acadêmico que casais que já são estáveis buscam casa, filhos, animais de estimação, ou seja, que a estabilidade pode ser um fato anterior e que na realidade concluíram que o rabo é que abanava o cachorro.

      Nesse mesmo brilhantismo, concluiu-se a pouco no Brasil que  "a inclusão de filosofia e sociologia como disciplinas obrigatórias no ensino médio em 2009 prejudicou a aprendizagem de matemática dos jovens brasileiros, principalmente os de baixa renda”. O crédito de tamanha sagacidade é devido à  Thais Waideman Niquito e Adolfo Sachsida, em estudo inédito que será publicado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

      Faço coro com a indignação do filósofo Paulo Ghiraldelli Jr., em artigo recentemente publicado no jornal A Folha de São Paulo, sobre como matemática parece realmente ter feito falta aos autores de tal boçalidade:

      “Mas, ainda que possamos ceder ao senso comum estúpido, que acha que matemática e português sejam as únicas coisas que devem ser ensinadas na escola, seria completamente insano dizer que uns míseros minutinhos de filosofia na semana são o lobo mau que tem impedido os porquinhos de se tornarem os vencedores das olimpíadas de matemática em Codó (MA) ou em Cruz das Almas (BA).

      [...] Trata-se aí, nessa pesquisa em questão, de se colocar na mesa elementos ilegítimos de apoio à reforma do ensino do governo Dilma-Temer, cujo único objetivo é enxugar a grade curricular da escola média. O objetivo é torná-la igual para todos —igual na mediocridade. Democratizar a escola virou sinônimo de socializar a incultura.

      A escola pobre para o pobre.”

 

      Enquanto caminhava ontem para o lugar que mais gosto de estar na vida -uma sala de aula-, me deparei com um homem sentado numa calçada no crepúsculo, misturado com as sombras, abrindo sacos de lixo e, no escuro, levando à boca tudo o que encontrava e que parecia ter alguma textura comestível.

      Sonho com outras calçadas. É dilacerante a impotência de não poder salvar aquela alma. O que me mantém de pé é a sensação de que posso evitar que pelo menos algumas outras se somem às populações de nossas ruas.

      Só a educação nos salva. Parabéns Fundação Pitágoras e conspiradores da Aliança Brasileira pela Educação por reunirem e empoderarem os heróis que podem fazer a diferença neste nosso perverso contexto e ajudar a povoar de maneira distinta as calçadas de nosso futuro: os diretores de nossas escolas públicas.

       Que floresçam as cerejeiras e nossos projetos. Plantei Joaquim, a sakurá e Cartas à Gualeguaychú.

Plauto Cardoso – Escritor, docente, investigador y abogado en las áreas de Derecho Constitucional, Derecho Procesal Civil, Derechos Humanos, Derecho & Política y Derecho & Literatura/Cine. Ama Gualeguaychú.